Diário de um escafandrista bêbado que vai parir três abacaxis na pandemia do corona / Journal d’un scaphandrier ivre qui va accoucher de trois ananas durant la pandémie de Covid

por Custódio Rosa

Cirurgia, religião, burrice e pequenos momentos de graça … O diário de um homen que teve a boa ideia de ter apendicite durante a epidemia de coronavírus, no Brasil.

. Pílulas do hospital – 1

A enfermeira entra para coletar sangue.
– Sou do laboratório.
Você pensa: laboratório, lugar técnico, de análise e ciência.
– Vc não liga a tv, né? Faz bem. Só tem coisa que nos afasta da fé. Ainda mais agora, essa coisa que inventaram só pra assustar.

Em 2 minutos, colheu sangue, falou o nome de Jesus 11 vezes e voltou.

Pro laboratório.

. Pílulas do hospital – 2

Paciente estava dopado e pulou esta

. Pílulas do hospital – 3

Na emergência, um médico e 3 ou 4 enfermeiras. Falam do auxílio de R$ 600 durante a quarentena. O médico espantado:

– Só quem ganha até 28 mil por ano. Gente, quem sobrevive com 28 mil por ano?

Silêncio das enfermeiras.

. Pílulas do hospital – 4

Ainda o médico e as enfermeiras. Confinamento. Uma delas:

– Eu já não sei o que é pior. Ficar em casa, como? Meu marido diz que o mundo precisa seguir, quem sobrar, sobrou. Ele é autônomo.
Espero o médico. Ele diz:

– Não sei se ele está errado.

Um médico.

. Pílulas do hospital – 5

Em uma volta para casa, motorista do uber:
– Ontem morreram 3 velhinhos que conheço. Nenhum foi de corona. Certeza que vão colocar nas estatísticas.
Fico em silêncio. Depois respondo.
– Tenho amigos na Itália, França. Acredite, é sério e vai piorar.

Ele me olha pelo retrovisor. Seu olhar me diz nitidamente: « você é trouxa ».

. Pílulas do hospital – 6

Outro uber:
– Trabalhava com Próteses e equipamentos cirúrgicos. O médico fica com comissão de cada peça, tudo superfaturado. Tinha um que tirava só do meu laboratório 500 mil por mês. Ninguém olhava no olho dele pq se ele não gostar vc mandava demitir.

. Pílulas do hospital – 7

No dia D da invasão da Normandia muitos morriam para livrar o mundo, enquanto meninos jogavam bola em um terreno baldio no Brasil.

Saí ha pouco de um procedimento cirúrgico. Falo pra enfermeira, sergipana séria mas simpática, que me leva pro quarto:
– Vocês vão ter no mínimo 2 meses duros pela frente.
– Será tudo isso?
Acho baixa a previsão mas não falei nada. Ela completa:
– Isso quem tiver vivo.
– Tem amigas contaminadas?
– Várias. Algumas na uti, outras deram positivo e estão em quarentena. Muitos médicos também. O hospital está contratando em esquema de urgência.
Penso nas tantas pessoas ainda alienadas que não entenderam o que está acontecendo.

No dia D da invasão da Normandia muitos morriam para livrar o mundo, enquanto meninos jogavam bola em um terreno baldio no Brasil.

Nós não temos o direito de ser esses meninos.

. Pílulas do hospital – 8

No 1° dia vc vai pro quarto, eles permitem você usar a camiseta com réplica do Guernica e bermuda, afinal elegância conta.

No 2°, obrigam o avental aberto atrás, você faz dele um quimono charmoso.

No 3° dia todos estão vendo sua bunda e você não tá nem aí.

. Pílulas do hospital – 9

O confinamento e a emergência de apêndice me pegaram talvez na melhor fase física da vida.

15% de gordura corporal, o tão socialmente idolatrado « tanquinho » ali, querendo ficar visível, mesmo não sendo um objetivo ou meta. Afinal, não troco meu chocolate depois do almoço e uma cerveja ou vinho pelo menos 2 vezes por mês .

Mas não sendo alto nem exatamente galã, sem dinheiro para ferraris ou restaurantes, sem ter profissão aventureira como surfista ou páraquedista, e sabendo que inteligência não é exatamente artigo de valor hoje, um homem de 52 precisa de algum atrativo sexy para seguir cotado no mercado.

A sensação de olhar o espelho e ver aquela possibilidade de abdômen gomado, mesmo não querendo ir até ele, é de propriedade e posse.
« Se quiser, duas semanas eu vou lá e pego. Meu abdômen « .

Então aparecem o coronavírus, confinamento, e depois a apendicite.

Em uma semana você sobe 500 degraus de escada como aquecimento para a academia, no outro anda pelo mundo como um escafandrista bêbado que vai parir três abacaxis.

A barriga enorme, redonda, disforme, com várias marcas de incisão que deixarão cicatrizes.

Meu abdômen…
Nada é nosso. Nem a Ferrari nem o tanquinho.

Somos só um monte de moléculas emprestadas.

. Pílulas do hospital – 10

Quando estava indo de uber pela 2a vez, já com apendicite aguda, deitei no banco de trás do carro olhando pra cima.
Uma tarde gloriosa, como tem sido todos os dias desde a quarentena. Lá em cima do céu sem nuvens, um urubu minúsculo circulava.
Claro que pensei num cartum. Falei pra ele:
Tô vivo ainda rapaz, urubu desastrado vira carniça.

Na zona sul de São Paulo ha 3 semanas faz dias lindos. Maritacas de manhã cruzam o bairro.
A represa Guarapiranga deve estar pletorando com as garças, patos do mato e galinhas da Angola. Minhas plantas no quintal crescem, as samambaias parecem marombeiras de academia.

Aqui no Jabaquara onde fica o hospital, barulho de avião acontece 4 ou 5 por dia. A média era de um a cada 2 minutos.
Escuto pássaros, que antes fugiam do bairro por causa das turbinas, circulando na região.

A natureza segue exuberante.
Ar mais limpo, céu com mais estrelas, animais mais tranquilos, é quase um desaforo de desprezo à espécie humana.
A natureza não depende de nós. A natureza não precisa de nós. Eu diria até que já estamos fazendo hora extra.
Ela mandou um recado óbvio:

– Vocês são apenas uma espécie como outra qualquer. Como milhares que já existiram e se foram no globo. Vocês são arrogantes, ignorantes, destrutivos e finitos. Eu acabo com vocês com um estalar de vírus. Entendam seu lugar, respeitem sua casa, revejam seus conceitos.
É certo que não vamos aprender.

Os urubus somos nós.
E urubu desastrado vira carniça.

. Pílulas do hospital – 11

Trump e EUA limparam o mercado de equipamentos de combate ao coronavirus no mundo. Foram à China, deram lance maior, limparam o estoque (incluindo a encomenda já direcionada ao Brasil que vai ficar sem nada).
Mas pagou a mais também pra tirar de outros países, incluindo a Alemanha.
Tirou o estoque do mundo.
Isso foi o governo americano.
Para chegar e distribuir para hospitais, certo?
Não.
Há 6 ou 7 empresas gigantes de fornecimento médico nos EUA. Elas têm caminhões e sistema de distribuição.
O governo vai passar todo esse material confiscado do mundo (a Alemanha chamou de pirataria moderna) para essas empresas que vão VENDER para os hospitais.

Vou repetir: VENDER.
Em sistema de leilão tipo eBay.
Hospital que dá mais leva.
E depois cobra dos pacientes.

Hospital que não têm grana não têm máscara .
Paciente que não tem grana não respira.

Esse é o capitalismo puro, sem censura nem hipocrisia.
O estado injeta milhões e dá de mão beijada um mercado monopolizado pros parceiros privados.
Tira do mundo todo e faz de um bem vital um lucro astronômico pros gigantes do setor sem nada em troca.

Na pílula 10 eu disse que não aprenderíamos.
Não precisou 3 minutos.

Abaixo link com a coletiva do governo americano explicando naturalmente como se nao fosse nada :

. Pílulas do hospital – 12

O andar em que estou está com todos os quartos e leitos ocupados.
É um setor livre de Covid.
É livre para quem quer caminhar pelo corredor, mas por ter duas internações em uma semana, tenho ordens de ficar no quarto. Estou em isolamento dentro do isolamento. Minha cara.
Só pude sair em macas ou cadeiras, para exames.
Já conheço um pouco a estrutura do hospital, e percebo que a cada dia mudam o itinerário.

Por causa do Covid, setores vão sendo restritos, elevadores e corredores tomados para públicos específicos. Caminhos internos mudam.
Meu quarto ganhou um monitor antes de eu chegar. Já está sendo preparado pra virar UTI.

Hoje de manhã a médica, no máximo 27 anos, veio me visitar. Seus colegas estão sendo recrutados de outros setores.
Perguntei pela situação geral:
– Esse setor no segundo andar agora é o único do hospital não utilizado pro Covid.
– Então… somos a aldeia de Asterix.

Acho que ela não entendeu.
Esses cartunistas são loucos.

. Pílulas do hospital – 13

Parte do dia passo conectado a uma haste- suporte com rodinhas. Bolsas de soro e medicamentos pingando lentamente.
Como sou um equipamento de certa idade, é aceitável ainda ser monitorado de forma analógica por cabos e fios. Um dia haverá soro fisiológico Wi-Fi.

Preciso caminhar pelo quarto, faz parte do processo de recuperação. Carregar minha parceira de rodinhas pelo quarto as vezes é necessário.
Idas e vindas com rodopios, como uma dança.
E como toda dança, há aquelas parceiras que ajudam, e as que atrapalham.
Dei azar, peguei uma roda-presa, não vai bem na reta, nem na curva. Não esperava um tango sensual, mas também não precisava ser um arrasto-com-obstáculos.

A alternativa é abstrair .
Celular, leitura, pensar em coisas enquanto empurro automaticamente minha parceira travadona.

Hoje uma enfermeira entrou no quarto.
Me viu indo ao banheiro com a nova namorada.

– Onde vai, seu Custódio?
– No banheiro.
– E pra que levar companhia?

Aí percebi que estava parte da manhã empurrando o suporte, mas sem nenhum medicamento nele. Estava livre, desconectado.
– Esqueci que estava solteiro.
Ela cai na gargalhada e mostra os saquinhos da bandeja.
– Agora não está mais.

. Pílulas do hospital -14

Toda vez que me vão medir meus batimentos cardíacos eu aviso: meu batimento é baixo. Em repouso e deitado chega a 52, 48 por minuto. É importante para terem como referência. O nome técnico disso acho que é « bradycardia ».

Toda vez que falo, as enfermeiras perguntam « O senhor foi atleta? « .

Algumas vezes eu digo que sou só pão-duro, estou economizando batimento pra sobrar no final. Internado, isso acontece ao menos 3 vezes por dia. Vem sempre uma enfermeira diferente, de acordo com o plantão.

Hoje veio uma que eu ainda não conhecia. Como quase todas, evangélica. Avisei. Ela mediu e fez a pergunta:

– É. 53 batimentos. O senhor foi atleta?

– Sim.

– Que bênção. Igual ao Bolsonaro.

-…

– Seu Custódio, por que subiu pra 96?

. Pílulas do hospital – 15

Hoje é meu último dia de internação.

Decidiram que no final do dia posso ir pra casa.

Aparentemente já tenho condições de fazer água sozinho e dar almoço pras plantas.

Ou algo assim.

De manhã achei o corredor um tanto barulhento. Conversas e vozes.

Perguntei para a enfermeira o porquê:

– Seus amigos querem receber alta.

O fato é que praticamente dois corredores do meu andar ainda estão livres do covid. O resto do hospital todo está se preparando para receber infectados em todos os setores. Aos poucos vão liberando pacientes pra casa, e aumentando o front.

Acontece que muitos não podem sair. Têm exames, cirurgias, ou estão em recuperação.

A notícia de que estamos cercados causou certo pânico.

Muitos pacientes têm se recusado a descer para exames fundamentais, com medo que o ar, paredes pessoas estejam contaminados.

Como disse dona Joélia, maranhense que faz limpeza todas as manhãs, « esses gases que sobem do satanás ».

Dona Joélia é engraçada, sempre em dupla com uma parceira tímida que não entra nos quartos. Elas conversam, discutem, dão risadas. Parece uma dupla de comédia americana, aqueles que polícia pega duas pessoas sem treinamento para serem informantes infiltrados. Outro dia ela entrou meio que girando o corpo quando passou pela porta. Olhou pra mim e disse:

– Quase caí. A luva prendeu na porta.

Uma filha apenas, que faz radiologia e teve que suspender o estágio por a causa dos « gases ».

– A senhora tem quantos anos?

– 50.

– Estou sem óculos, dona Joélia. Não posso dizer se aparenta menos.

– Sem óculos, é? Tu tem é olho, que eu sei.

De todos profissionais, talvez sejam os mais desprotegidos, que saem dali a noite e vão de ônibus lotados para um bairro distante.

– Vou pra casa hoje, dona Joélia. Acha que minhas plantas estão vivas?

– Com a graça do Senhor, elas não sofrem desses gases não.

Então é isso.

Depois de 5 dias sem cozinhar nem tomar meu próprio remédio, volto pra autonomia de adulto no mundo real.

Acho que ja sei fazer água sozinho e dar almoço pras plantas.

Ou algo assim.

Créditos do banner : areta ekarafi on Visual Hunt / CC BY-NC-ND


par Custódio Rosa

Chirurgie, religion, bêtise et petits instants de grâce… Le journal d’un type qui a eu la bonne idée d’avoir une appendicite pendant l’épidémie de coronavirus, au Brésil.

. Pilules d’hôpital – 1

L’infirmière vient me faire une prise de sang.

– Je suis du labo.

Vous pensez : laboratoire, lieu technique, d’analyse et de science.

– Vous n’allumez pas le téléviseur, non ? Vous faites bien. Ils ne passent que des choses qui tentent d’ébranler notre foi. Et plus encore maintenant, avec ce machin qu’ils ont inventé juste pour nous faire peur.

En deux minutes, elle m’a fait une prise de sang, a prononcé le nom de Jésus onze fois, et est repartie.

Au laboratoire.

. Pilules d’hôpital – 2

Dopé, le patient a zappé cette pilule.

. Pilules d’hôpital – 3

Aux urgences, un médecin et trois ou quatre infirmières. Ils parlent de l’aide de 600 réaux accordée pendant la quarantaine. Le médecin étonné :

– Seulement pour ceux qui gagnent jusqu’à 28 000 par an. Les gars, qui survit avec 28 000 par an?

Silence des infirmières.

. Pilules d’hôpital – 4

Toujours le médecin et les infirmières. Quarantaine.

L’une des infirmières :

– Je ne sais pas ce qui est pire. Restez à la maison, comment ? Mon mari dit que le monde doit continuer à fonctionner, et qu’il y en a bien qui vont survivre. Il travaille en indépendant.

J’attends le docteur. Il dit :

– Je ne sais pas s’il a tort.

Un docteur.

. Pilules de l’hôpital – 5

Sur le chemin du retour, un chauffeur Uber :

– Hier, trois petits vieux que je connais sont morts. Aucun du corona. Je suis sûr qu’ils vont les mettre dans les statistiques.

Je reste silencieux, puis je réponds.

– J’ai des amis en Italie, en France. Croyez-moi, c’est grave et ça va empirer.

Il me regarde dans le rétroviseur. Son regard me dit clairement : « t’es dingue ».

. Pilules d’hôpital – 6

Un autre chauffeur Uber :

– J’ai travaillé dans les prothèses et le matériel chirurgical. Le médecin reçoit une commission pour chaque pièce, tout est surfacturé. Il y en avait un qui prenait 500 000 par mois, rien qu’avec mon laboratoire. Personne n’osait le défier, parce que s’il ne pouvait pas vous encadrer, il vous faisait virer.

. Pilules d’hôpital – 7

Le jour J du débarquement en Normandie, beaucoup sont morts pour libérer le monde, tandis que des gamins jouaient au ballon sur un terrain vague au Brésil.

Je viens de sortir d’une intervention chirurgicale. Je parle à l’infirmière, originaire du Sergipe, sérieuse mais sympathique, qui m’emmène dans ma chambre :

– Vous aller avoir au moins deux mois difficiles.

– C’est tout ?

Je trouve les prévisions basses, mais je ne dis rien.

Elle ajoute :

– Ce sera difficile pour ceux qui vont survivre.

– Avez-vous des amies contaminées?

– Plusieurs. Certaines en soins intensifs, d’autres ont été testées positif et sont en quarantaine. Beaucoup de médecins aussi. L’hôpital embauche dans le cadre d’un plan d’urgence.

Je pense aux nombreuses personnes encore aliénées qui n’ont pas compris ce qui est en train de se passer.

Le jour J de l’invasion de la Normandie, beaucoup sont morts pour libérer le monde, tandis que des gamins jouaient au ballon sur un terrain vague au Brésil.

Nous n’avons pas le droit d’être ces gamins.

. Pilules d’hôpital – 8

Le premier jour où vous vous rendez dans votre chambre, on vous autorise à porter votre T-shirt à l’effigie de Guernica et un short, après tout l’élégance compte.

Le deuxième, on ouvre votre tablier à l’arrière, vous en faites un charmant kimono.

Le troisième, tout le monde voit votre cul et vous vous en foutez.

. Pilules d’hôpital – 9

Le confinement et l’urgence causée par mon appendice m’ont saisi durant la meilleure phase physique de ma vie.

15% de masse graisseuse, la « tablette de chocolat » si socialement idolâtrée bien en place, comptant rester visible, même s’il ne s’agit pas d’un objectif ni d’un but en soi. Après tout, je ne dis ne pas non à une friandise après le déjeuner, ni à une bière ou du vin, au moins deux fois par mois.

Mais n’étant pas grand ni tout à fait crétin, pas assez fortuné pour m’offrir des Ferrari ou des restaurants, n’exerçant pas une profession aventureuse telle que surfeur ou parachutiste, et sachant que l’intelligence n’est pas exactement un élément de valeur aujourd’hui, un homme de 52 ans a besoin d’une attrait sexy pour rester sur le marché.

C’est avec un sentiment de propriétaire que je vois dans le miroir la possibilité que ma tablette de chocolat soit gommée, même si j’essaye de ne pas y accorder trop d’importance.

– « Si ça te dit, je pars deux semaines et je te récupère, cher abdomen. »

Puis un coronavirus fait son apparition, un confinement, et une appendicite.

Une semaine, vous montez 500 marches pour vous échauffer avant la salle de sport, la suivante vous allez par le monde comme un scaphandrier ivre qui va accoucher de trois ananas.

Le ventre énorme, rond et déformé, avec plusieurs marques d’incision qui laisseront des cicatrices.

Mon abdomen …

Rien n’est à nous. Ni la Ferrari ni les tablettes de chocolat.

Nous sommes juste un tas de molécules qu’on a refourguées.

. Pilules d’hôpital – 10

Alors que je me trouvais à bord d’un Uber pour la deuxième fois, souffrant déjà d’une appendicite aiguë, je me suis allongé sur le siège arrière de la voiture en levant les yeux.

Un après-midi glorieux, comme chaque jour depuis la quarantaine. Au-dessus, dans le ciel sans nuages, un minuscule vautour tournoyait.

Bien sûr, j’ai pensé à un dessin animé. Je lui ai dit :

– Je suis toujours vivant, le jeune vautour maladroit devient une charogne.

Dans le sud de São Paulo, cela fait trois semaines qu’il fait beau. Des maritacas matinales sillonnent le quartier. Le barrage de Guarapiranga doit être plein de hérons, canards et poulets d’Angola. Mes plantes dans l’arrière-cour poussent, les fougères ressemblent aux bimbos musclées de la salle de sport.

Ici à Jabaquara, où se trouve l’hôpital, le bruit des avions résonne quatre ou cinq fois par jour. La moyenne était d’un avion toutes les deux minutes.

J’écoute les oiseaux, qui auparavant fuyaient le quartier à cause des turbines, circulant dans la région.

La nature reste exubérante.

Un air plus pur, un ciel avec plus d’étoiles, des animaux plus paisibles, c’est presque un témoignage de mépris envers l’espèce humaine.

La nature ne dépend pas de nous. La nature n’a pas besoin de nous. Je dirais même que nous faisons déjà des heures supplémentaires.

Elle a envoyé un message évident :

– Vous n’êtes qu’une espèce comme une autre. Comme des milliers qui ont déjà existé et se sont répandues sur le globe. Vous êtes arrogants, ignorants, destructeurs et limités. Je vous élimine avec un virus créé en un claquement de doigt. Comprenez votre lieu de vie, respectez votre maison, révisez vos concepts.

Il est certain que nous n’apprendrons pas.

Nous sommes les vautours.

Et le vautour maladroit devient charogne.


. Pilules d’hôpital – 11

Trump et les États-Unis ont siphonné le marché mondial des équipements de lutte contre les coronavirus. Ils sont allés en Chine, ont fait l’offre la plus élevée, nettoyé le stock (y compris la commande à destination du Brésil, qui se retrouve le bec dans l’eau).

Mais ils ont payé aussi très cher pour le prendre à d’autres pays, y compris l’Allemagne.

Ils ont retiré le stock du monde.

C’était le gouvernement américain.

Pour le distribuer aux hôpitaux, pas vrai ?

Non.

Il existe six ou sept grandes sociétés de fournitures médicales aux États-Unis. Ils possèdent des camions et un système de distribution.

Le gouvernement va transmettre tout ce matériel confisqué au monde (l’Allemagne a taxé cela de piraterie moderne) à ces entreprises qui vont le VENDRE aux hôpitaux.

Je vais répéter : VENDRE.

Aux enchères, comme eBay.

L’hôpital qui offre le plus emporte la mise.

Et puis il adresse la note aux patients.

Les hôpitaux qui n’ont pas de fric n’ont pas de masque.

Le patient qui n’a pas de fric ne respire pas.

C’est du pur capitalisme, sans censure ni hypocrisie.

L’État injecte des millions et cède un marché monopolisé à des partenaires privés, de bonne grâce.

Il prend tout au monde entier et fait d’un atout vital un profit astronomique pour les géants du secteur, sans rien en retour.

Dans la pilule 10, j’ai dit que nous n’apprendrions pas.

Cela n’a pas pris trois minutes.

Ci-dessous le lien vers la conférence de presse du gouvernement américain expliquant tout cela comme si de rien n’était :

. Pilules d’hôpital – 12

A l’étage où je me trouve, toutes les chambres et les lits sont occupés.

C’est un secteur sans Covid.

On peut déambuler dans les couloirs, mais comme j’ai vécu deux admissions en une semaine, j’ai ordre de rester dans ma chambre. Je suis isolé dans l’isolement, très cher.

Je n’ai pu sortir que sur des brancards ou des chaises roulantes, pour les examens.

Je connais déjà un peu la structure de l’hôpital et je constate que l’itinéraire change chaque jour.

En raison du Covid, des secteurs sont restreints, des ascenseurs et des couloirs sont réservés à des publics spécifiques. Les itinéraires internes sont modifiés.

Ma chambre disposait d’un moniteur avant mon arrivée. On est déjà en train de le préparer pour le transférer aux soins intensifs.

Ce matin, la médecin, âgée de vingt-sept ans au plus, est venue me rendre visite. Ses collègues d’autres secteurs sont en train d’être recrutés.

J’ai demandé à en savoir plus sur la situation :

– Ce secteur du deuxième étage est désormais le seul de l’hôpital non utilisé pour le Covid.

– Alors … nous sommes le village d’Astérix.

Je ne pense pas qu’elle ait compris.

Ces dessinateurs sont fous.

. Pilules d’hôpital – 13

J’ai passé une partie de la journée connecté à une tige munie de roues. Des poches de sérum physiologique et de médicaments s’écoulaient lentement.

Comme je suis un équipement d’un certain âge, il est toujours acceptable d’être surveillé de façon analogique par des câbles et des fils. Un jour, il y aura du sérum physiologique Wi-Fi.

Je dois marcher dans la chambre, cela fait partie du processus de récupération. Il est parfois nécessaire de transporter mon partenaire à roues dans la pièce.

Aller et venir avec des virevoltes, comme une danse.

Et comme toute danse, il y a les partenaires avec qui cela fonctionne bien et celles qui gênent.

Je n’ai pas eu de chance, j’ai une roue coincée, elle n’avance pas bien en ligne droite, et tourne mal. Je ne m’attendais pas à un tango sensuel, mais je n’avais pas non plus besoin que ce soit une course d’obstacles.

L’alternative est d’en faire abstraction.

Téléphone portable, lecture, réflexion en tous genres pendant que je pousse automatiquement ma méchante partenaire.

Aujourd’hui, une infirmière est entrée dans la pièce. Elle m’a vu aller aux toilettes avec ma nouvelle petite amie.

– Où allez-vous, monsieur Custódio ?

– Aux toilettes.

– Et pourquoi y aller accompagné ?

Là, j’ai réalisé que j’avais passé ma matinée à pousser la tige, dépourvue de médicament. J’étais libre, déconnecté.

– Je ne m’étais pas rendu compte que j’étais célibataire.

Elle rit et montre les poches de médicament sur le plateau.

– Plus maintenant.

. Pilules d’hôpital – 14

Chaque fois qu’on mesure mon rythme cardiaque, je préviens : il est faible. Au repos et en position couchée, il atteint 52, 48 par minute. Il est important d’avoir cette référence en tête.
Je pense que le nom technique est « bradycardie ».

Chaque fois que j’en parle, les infirmières demandent « Vous étiez athlète? ».
Parfois, je dis que je suis juste avare, que j’économise des battements pour la fin.

À l’hôpital, cette scène se produit au moins trois fois par jour. Il vient toujours une infirmière différente, selon le planning.

Aujourd’hui, il en est venue une que je ne connaissais pas encore. Évangéliste, comme presque toutes. Je m’en suis rendu compte. Elle a pris mon rythme cardiaque et m’a posé la question :

– Bon. 53 battements. Vous étiez athlète ?

– Oui

– Quelle bénédiction. Tout comme Bolsonaro.

– …

– Monsieur Custódio, pourquoi êtes-vous monté à 96 ?


. Pilules d’hôpital – 15

Aujourd’hui, c’est mon dernier jour d’hospitalisation.
Ils ont décidé qu’à la fin de la journée, je pouvais rentrer chez moi.
Apparemment, je suis déjà capable de produire de l’eau par moi-même et de servir leur déjeuner aux plantes.

Ou quelque chose dans le genre.

Ce matin, j’ai trouvé le couloir un peu bruyant. Conversations et voix.
J’ai demandé à l’infirmière la raison de ce vacarme :

– Vos amis veulent quitter l’hôpital.

Le fait est que pratiquement deux couloirs de mon étage n’accueillent toujours pas de Covid. Le reste de l’hôpital se prépare à prendre en charge des malades dans tous les secteurs. Progressivement, ils renvoient les patients chez eux, agrandissent le front.
Il s’avère que beaucoup ne peuvent pas sortir. Il ont des examens, des opérations ou sont en convalescence.
La nouvelle selon laquelle nous sommes cernés a semé la panique.
De nombreux patients ont refusé de se soumettre à des examens fondamentaux, craignant que l’air, les murs et les personnes ne soient contaminés.
Comme l’a dit Dona Joélia, une dame du Maranhão qui fait le ménage chaque matin, « ces gaz qui émanent de Satan ».

Dona Joélia est drôle, toujours accompagnée d’un partenaire timide qui n’entre pas dans les chambres. Elles papotent, se disputent, rient. On dirait un duo d’une comédie américaine, le genre où la police recrute deux types sans aucune référence pour en faire des agents infiltrés. L’autre jour, elle a fait un tour sur elle-même en franchissant la porte. Elle m’a regardé et m’a dit :

– J’ai failli tomber. Le gant s’est pris dans la porte.

Elle n’a qu’une fille, qui fait radiologie et a dû interrompre son stage à cause des « gaz ».

– Quel âge avez-vous ?

– Cinquante ans.

– Je n’ai pas mes lunettes, Dona Joélia. Je ne peux pas dire si vous faites moins.

– Pas de lunettes, hein ? Mais tu as l’oeil, je le sais.

De tous ceux qui travaillent ici, ce sont peut-être les moins protégés qui partent d’ici à la nuit tombée, à bord de bus bondés, à destination d’un quartier lointain.

– Je rentre chez moi aujourd’hui, Dona Joélia. Pensez-vous que mes plantes sont encore vivantes ?

– Avec la grâce du Seigneur, elles ne souffrent pas de ces gaz.

Voilà.

Après cinq jours sans cuisiner ni prendre mes médicaments tout seul, je retrouve l’autonomie des adultes dans le monde réel.

Je pense que je sais déjà comment produire de l’eau par moi-même et servir leur déjeuner aux plantes.

Ou quelque chose dans le genre.

Crédits de la bannière : areta ekarafi on Visual Hunt / CC BY-NC-ND

Sorria: sua morte pode salvar o grande Capital / Souriez : votre mort peut sauver le grand Capital

Por Custódio Rosa

Tem um fator tácito, meio óbvio mas oculto, nos discursos de Salvini, Trump, Johnson, Bolsonaro, Justus e outros conservadores e capitalistas.
Para eles o bom combate é o que protege o sistema do grande capital, a grana grossa.
Nesse combate, velhinhos, pobres, populações de rua e favelados são sempre o número incômodo, o excedente, o que atrapalha a planilha, o que impede resultados. A sujeira.
Se em uma situação normal a própria existência dessas pessoas já é indesejável, em uma situação de crise colossal passa a ser insustentável. Então o vírus pode fazer a « limpeza » que tirará da sociedade os que dão mais despesa e pouco retorno.

O discurso do Bolsonaro e do Justus reflete exatamente isso. « Vai morrer quem é velhinho, quem já tem problemas ».
« Acontece ».
A questão é que esse pensamento de que o extermínio, morte ou desaparecimento dessas populações não seria de todo ruim, não é reserva de mercado dos grandes endinheirados. Vejo isso no clube, academia, futebol, família, na minha rua. Gente que não se importaria nem um pouco com a eliminação ou desaparecimento de milhares de pessoas que « atrapalham » a vida social, desde que não sejam amigos ou da família. Não se importam se « eles » forem queimados no forno, em prol da sua melhor vida social futura.

E assim, o sistema joga os fracos no fogo tentando manter o grande capital protegido e com alguma capacidade de investimento. E, ao final desta crise, esse mesmo capital encontrará terreno livre para negócios inimagináveis:

De um lado, preços de ações, imóveis e bens estarão achatados, vendidos na bacia das almas. Uma enorme alavancagem patrimonial em curto espaço de tempo;

Do outro gente pendurada em juros e dívidas por anos ou décadas, vendendo para esse mesmo capital sua mão de obra, aposentadoria ou bens materiais para sobreviver.

O sujeito, que não é um grande capitalista mas defende o sistema que privilegia quem o fará prisioneiro, está indo direto pra armadilha. Vai blasfemando e condenando os que têm menos que ele, sem perceber que são quase seus vizinhos.
E que, na hora da lenha, eles mesmos serão os próximos da fila.

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Par Custódio Rosa

Il y a un facteur tacite, quelque peu évident mais caché, dans les discours de Salvini, Trump, Johnson, Bolsonaro, Justus et d’autres conservateurs et capitalistes.
Pour eux, le bon combat est celui qui protège le système du grand capital, du fric.
Dans cette lutte, les personnes âgées, les pauvres, les gens de la rue et les habitants des bidonvilles sont toujours un lot gênant, l’excédent, ce qui déroute le tableur, ce qui empêche d’atteindre les résultats. La lie.
Si, dans une situation normale, l’existence même de ces personnes est déjà indésirable, dans une situation de crise colossale, elle devient insoutenable. Ainsi, le virus peut faire le « coup de propre » qui éliminera de la société ceux qui engendrent plus de dépenses et peu de retour.

Le discours de Bolsonaro et Justus reflète exactement cela. « Ceux qui sont vieux, ceux qui ont déjà des problèmes vont mourir ».
« Ça arrive ».
Le fait est que cette pensée que l’extermination, la mort ou la disparition de ces populations ne serait pas un drame, n’est pas le propre des nantis. Je le vois au club, au gymnase, au football, en famille, dans ma rue. Les gens ne se soucient pas du tout de l’élimination ou de la disparition de milliers de personnes qui « perturbent » la vie sociale, tant qu’elles ne font pas partie de leurs amis ou de leur famille. Ils se foutent qu »ils » soient jetés au four, au bénéfice d’une meilleure vie sociale future.

Et donc, le système balancent les faibles au feu en essayant de protéger le grand capital et sa capacité d’investissement. Et, au sortir de cette crise, ce même capital trouvera un terrain libre pour réaliser des affaires inimaginables :

d’un côté, les prix des actions, de l’immobilier et des biens seront aplatis, vendus pour une bouchée de pain. Un énorme effet de levier patrimonial en un laps de temps très court;

d’un autre côté, des gens pieds et poings liés par les intérêts et l’endettement sur des années ou des décennies, vendront leur travail, leur retraite ou leurs biens matériels à ce même capital, pour survivre.

Celui qui, n’étant pas un grand capitaliste mais défend le système qui privilégie ceux qui feront de lui un prisonnier, se jette dans la gueule du loup. Il blasphème et condamne ceux qui ont moins que lui, sans se rendre compte qu’ils sont quasiment ses voisins.
Et que, lorsque la faucheuse passera, ces derniers seront les suivants sur la liste.

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Vive la médiocrité ? / Viva a mediocridade!

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Beaucoup de Français estiment que leur pays baigne dans une médiocrité doucereuse, et regrettent un passé brillant. Ils voient leur pays comme un héritier vivant de ses rentes (dont seul un petit nombre profite). Notamment en ce qui concerne les arts et la politique. Je partage leur ressenti. Mais ce n’est pas le sujet de ce post.

Non, le fait est que notre médiocrité fait envie à bon nombre de Brésiliens, qui vivent un cauchemar éveillé. La majorité d’entre eux ont plébiscité ce cauchemar, et continuent de leur faire. Malgré les scandales à répétition, la destruction de la nature et l’ensauvagement de tout un pays. Les Brésiliens sont à la limite du syndrome de Stockholm. Ils ont trouvé un bourreau idiot, cruel et inconsistant. Un produit hyper-abouti de la bêtise.

D’un côté, il y une médiocrité satisfaite, repue, reproduisant les inégalités, et de l’autre une « démocrature » barbare, prônant le racisme et le nationalisme. Quel est le sens de l’histoire ? Lequel des deux pays annonce l’ère qui vient ? À l’heure du Brexit, de Trump, de Poutine et du leadership chinois, il y a lieu de trembler, notamment pour les Français… Au Brésil, le futur mal est déjà là.

Muitos franceses acreditam que seu país está mergulhado em doce mediocridade e se lamentam pelo passado brilhante. Eles veem seu país como um herdeiro que vive da rendas de seus aluguéis (dos quais apenas alguns beneficiam). Especialmente no que diz respeito às artes e à política. Eu compartilho os sentimentos deles. Mas este não é o assunto deste post.

Não, o fato é que nossa mediocridade é a inveja de muitos brasileiros, que estão vivendo um pesadelo. A maioria deles votou neste pesadelo e continua a fazê-lo. Apesar dos repetidos escândalos, a destruição da natureza e o empobrecimento de um país inteiro. Os brasileiros estão à beira da síndrome de Estocolmo. Eles encontraram um carrasco idiota, cruel e inconsistente. Um produto hiper-bem-sucedido de estupidez.

Por um lado, há uma mediocridade satisfeita e saciada, reproduzindo desigualdades e, por outro, uma « democradura » bárbara, defendendo o racismo e o nacionalismo. Qual é o significado da história? Qual dos dois países anuncia a próxima era? Na época do Brexit, Trump, Putin e liderança chinesa, há motivos para tremer, especialmente para os franceses … No Brasil, o futuro mal já está lá.

La vérité, tout la vérité / A verdade, toda a verdade

L’avènement de Trump fut celui de la post-vérité. Une manipulation consciente et éhontée de faits, afin d’échafauder une vérité flatteuse pour celui qui l’énonce. C’est le gros « bon sens » idiot érigé en code de conduite. Le genre de bêtise qui amène Trump à demander aux autorités françaises de larguer de l’eau par avion sur Notre-Dame en feu, sans imaginer un instant que ce type d’opération pourrait détruire la cathédrale…

Les palabres du Café du Commerce en guise vision.

Mais Bolsonaro frappe un cran au-dessus. Pour sa part, il occulte toute notion de vérité. Chez lui, la communication politique n’existe pas. Idiot ou cynique, il ne cherche pas à avoir raison, il parle. Et cela fonctionne. Grâce à quoi ? L’état catastrophique du Brésil, et un noyau de sympathisants qui parlent et menacent forts.

Chez Bolsonaro, le langage n’est plus un instrument de manipulation, il n’est d’aucune utilité. Superflu, le débat est signe de malhonnêteté, de manipulation, tout comme l’intelligence, ou les vérités nécessitant plus de trois mots pour être exprimées.

Avec Bolsonaro, les mises en garde du Why I write d’Orwell son caduques. Le langage n’est plus un moyen de séduction. Il est ruiné. Le fait prend sa place, avec la photographie, la vidéo, le tweet et le post. Des instruments pauvres, qui ont pour fonction d’occuper l’espace, comme le mastic comble le failles d’un mur. Leur accumulation est une fin en soi.

Bolsonaro obéit au même leitmotiv que les jeunes mafiosi, décrits par Saviano : Le passé appartient aux vieux et le futur appartient aux losers. Seul le présent appartient aux gagnants.

Il ne se souvient de rien, n’anticipe rien. Il s’agit de donner l’apparence d’avoir raison, hic et nunc. Le reste n’est que littérature…


O advento de Trump foi o da pós-verdade. Uma manipulação consciente e desavergonhada dos fatos, a fim de construir uma verdade lisonjeira para quem a afirma. Este é o grande idiota movido pelo « senso comum » erigido à padrão do pensamento. O tipo de estupidez que leva Trump a pedir às autoridades francesas que joguem água por ar em Notre-Dame em fogo, sem imaginar por um momento que esse tipo de operação poderia destruir a catedral …

A palapres do Café du Commerce como uma visão.

Mas Bolsonaro atinge um nível acima. Em sua prática, obscurece qualquer noção de verdade. Com ele, a comunicação política não existe. Idiota ou cínico, ele não tenta estar certo, ele fala. E isso funciona. Graças a quê? O estado catastrófico do Brasil e um núcleo de simpatizantes que gritam e ameaçam forte.

Em Bolsonaro, a linguagem não é mais um instrumento de manipulação, não tem utilidade. Supérfluo, o debate é um sinal de desonestidade, é manipulativo, assim como a inteligência, ou verdades que exigem mais do que três palavras para serem expressas.

Com Bolsonaro, as advertências de Orwell no seu Why I write soam decrépitas. A linguagem não é mais um meio de sedução. Ela está arruinada. O fato toma o seu lugar, com fotografia, vídeo, tweet e post. Instrumentos pobres, cuja função é ocupar o espaço, como um gesso oco que preenche as faltas de uma parede. Sua acumulação é um fim em si mesmo.

Bolsonaro obedece ao mesmo leitmotiv dos jovens mafiosos, descritos por Saviano: O passado pertence ao velho e o futuro pertence aos perdedores. Apenas o presente pertence aos vencedores.

Ele não lembra de nada, não antecipa nada. É sobre dar a aparência de estar certo, hic et nunc. O resto é apenas literatura …

O Brasileiro que conheço / Le Brésilien que je connais

Drapeau Brésil por Custódio Rosa

Sou como você. Conheço muitos Brasileiros.
No meu caso, alguns são artistas, outros trabalham com comunicação, boa parte destes é de “descolados”, gente que pensa o mundo de forma diferente.
Mas a maioria, talvez 90% que conheço, são o Brasileiro médio. Esse é o Brasileiro que conheço :
O Brasileiro que conheço não lê livro. No máximo, auto-ajuda ou algum motivacional.
O Brasileiro que conheço não entende de arte, na verdade despreza a arte e os artistas.
O Brasileiro que conheço sabe distinguir uma boa roupa, mas não consegue distinguir entre um produto artístico vagabundo e o que tem valor, e sempre consome o primeiro.
O Brasileiro que conheço despreza pensamentos filosóficos ou especulativos, não vê importância em nada que não seja “prático”.
O Brasileiro que conheço olha torto se alguém usa uma palavra com mais de três sílabas.
O Brasileiro que conheço não entende nada da história do próprio país. Não sabe dos golpes, das revoluções, das artimanhas que sempre se fez para garantir que o poder e os recursos não saiam de um grupo que sempre mandou nesses 500 anos.
O Brasileiro que eu conheço só admite que alguém suba de classe social se adotar o discurso da classe de cima. Caso contrário vai ser perseguido, acusado e isolado.
O Brasileiro que eu conheço não é a favor de greve. A não ser a dos caminhoneiros, porque os caminhoneiros como classe são retrógrados, e o brasileiro que conheço só aprova greve retrógrada.
O Brasileiro que eu conheço é afável pessoalmente e retrógrado politicamente.
O Brasileiro que conheço não se importa quantas pessoas morrem no trânsito, desde que ele possa andar a mais de 60km.
O Brasileiro que eu conheço está se lixando pra corrupção. Ele é alienado para qualquer escândalo que não seja de um partido político ou pessoa da esquerda. Todos os outros ele não liga.
O Brasileiro que eu conheço só acha imoral o pecado dos outros.
O Brasileiro que eu conheço só acha desonesta a desonestidade dos outros.
O Brasileiro que eu conheço nunca se acha culpado de nada.
O Brasileiro que conheço não se arrepende do crime, mas de ter sido flagrado. Ele justifica qualquer absurdo como « era só uma brincadeira ».
O Brasileiro que conheço não liga causas e consequências. Ele não vê relação entre as idiotices que faz e o que a natureza, a sociedade, a política, a economia e a própria vida manda de volta pra ele.
O Brasileiro que conheço acha que o filho dele de 34 é um garoto que precisa ser protegido, mas o do favelado aos 14 já pode ser criminalizado como adulto.
O Brasileiro que eu conheço corrompe alguém pro filho escapar do serviço militar, mas quer um governo militar pra acabar com a corrupção.
O Brasileiro que conheço é chantageado, ameaçado e escorchado dentro de uma delegacia pelo próprio delegado que lhe pede dinheiro, mas acha que Sergio Moro é um herói.
O Brasileiro que eu conheço tá se lixando pra Amazônia, pra floresta e proteção ambiental, pra tragédia de Mariana ou aquecimento global. Bicho bom pra ele é no churrasco, e mato tem mais que cobrir com porcelanato.
O Brasileiro que eu conheço é ogro, obtuso, não se importa com isso e tem até orgulho de ser assim.

O Brasileiro que conheço vai ser governado por um governo que é a cara dele.

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Drapeau France par Custódio Rosa

Je suis tout comme vous. Je connais beaucoup de Brésiliens.

Dans mon cas, certains sont des artistes, d’autres travaillent dans la communication, la plupart sont des gens « cools », qui pensent le monde différemment.

Mais la majorité, peut-être 90% de ceux que je connais, incarnent le Brésilien moyen. Voici le Brésilien que je connais :

Le Brésilien que je connais ne lit pas de livre. Ou seulement des bouquins sur la motivation et le développement personnel, au mieux.

Le Brésilien que je connais ne comprend rien à l’art, en fait, il le méprise, ainsi que les artistes.

Le Brésilien que je connais sait choisir de beaux vêtements, mais il ne sait pas faire la différence entre un produit culturel médiocre et un autre qualitatif, et il consomme toujours le premier.

Le Brésilien que je connais méprise les pensées philosophiques ou spéculatives, il ne prête aucune valeur à ce qui n’est pas « pratique ».

Le Brésilien que je connais regarde avec défiance celui qui emploie un mot de plus de trois syllabes.

Le Brésilien que je connais ne comprend rien à l’histoire de son propre pays. Il ne sait rien des coups d’Etat, des révolutions, des manipulations nécessaires pour que le pouvoir et les richesses n’échappent pas au groupe social qui dirige ce pays depuis 500 ans.

Le Brésilien que je connais admet qu’on gravisse l’échelle sociale que si on adopte le discours de la classe sociale supérieure. Sinon, on sera persécuté, stigmatisé et isolé.

Le Brésilien que je connais n’est pas en faveur de la grève. Sauf celle des chauffeurs routiers, parce que le groupement des camionneurs est rétrograde et que le Brésilien que je connais n’approuve que les grèves rétrogrades.

Le Brésilien que je connais est individuellement affable et politiquement rétrograde.

Le Brésilien que je connais ne se soucie pas du nombre de personnes qui meurent dans un accident de la route, tant qu’il peut rouler à plus de 60 km/h.

Le Brésilien que je connais se lave les mains de la corruption. Il est ne considère que les scandales concernant un parti politique et la gauche. Il se fout de tous les autres.

Le Brésilien ne trouve immoral que le péché des autres.

Le Brésilien ne trouve malhonnête que la malhonnêteté des autres. Le Brésilien que je connais n’est jamais coupable de rien.

Le Brésilien que je connais ne se repend que de s’être fait prendre. Il justifie l’absurde en disant que « c’était juste une blague ».

Le Brésilien que je connais ne relie pas les causes aux conséquences. Il ne voit aucune relation entre les idioties qu’il commet et la façon dont elles impactent la nature, la société, la politique, l’économie et sa propre vie.

Le Brésilien que je connais pense que son fils de 34 ans est un garçon à protéger, mais qu’un gamin de 14 ans issu d’une favela peut être criminalisé comme un adulte.

Le Brésilien que je connais graisse la patte pour que son fils n’effectue pas son service militaire, mais il souhaite qu’un gouvernement militaire mette fin à la corruption.

Le Brésilien que je connais est soumis au chantage, il est menacé et traqué à l’intérieur d’un commissariat par un officier qui lui demande de l’argent, mais il pense que Sergio Moro est un héros.

Le Brésilien que je connais se contrefout de l’Amazonie, de la protection de la forêt et de l’environnement, comme de la tragédie de Mariana ou du réchauffement climatique. A ses yeux, le truc sympa c’est le churrasco, et recouvrir la brousse de porcelaine.

Le Brésilien que je connais est un ogre, obtus, et s’en fiche, et en tire même de la fierté.

Je sais que le Brésilien que je connais a élu un gouvernement à son image.

Photo credit: tropical.pete on VisualHunt / CC BY-SA