Titeuf: um menino francês decidindo o futuro do Brasil / Titeuf: un gamin français décide de l’avenir du Brésil

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Drapeau Brésil por Custódio Rosa

A ignorância é uma besta de difícil combate porque ela se fortalece comendo os próprios excrementos.

Esta semana virou assunto corrente no Brasil o candidato da extrema-direita, ex-militar e segundo colocado nas pesquisas para presidente, ter levado ao telejornal de maior audiência do Pais (aqui um único telejornal é fonte de informação da população, pois tem 40 a 50% de audiência do horário) um livro, que ele classificou como sendo “kit gay”.

Este livro « seria distribuído nas escolas” não fosse a corajosa e oportuna mobilização da melhor parte de nossa sociedade, capitaneada por ele e seus amigos.

O livro em questão é de um personagem francês chamado Titeuf.

O autor é um famoso cartunista francês chamado Zep. Seu nome, na verdade é Phillipe Chappuis, tem 51 anos, e publica álbuns do Titeuf desde 1992, tendo vendido mais de 20 milhões de exemplares em 25 países desde então.

E quem seria Titeuf?

Um menino, pré-adolescente, naquela idade confusa de quem saiu da inocência da infância e tenta compreender o mundo.

E nessa compreensão, caminha entre o nojo e atração sobre… o sexo!

Nojo, porque, obviamente, você grudar sua boca, enfiando sua língua úmida e requebrante feito uma enguia, goela a baixo da outra pessoa, trocando salivas e gemidos é algo absolutamente nojento.
Se você não entende esse nojo, é porque nunca foi um menino de 10 anos.
Atração porque, oras bolas… você é um menino de 10 anos!

Os álbuns do Titeuf são escritos para adultos, com seu humor peculiar, ao mesmo tempo cru e ingênuo, mas muito mais direcionados para garotos.

Porque ali estão as coisas que eles pensam, e o livro se coloca ao lado deles para que os ajude a compreender as coisas, principalmente dizendo: “ei, cara, você não está sozinho. Isso tudo é mesmo muito estranho”.
Mas estamos na França.

Voltemos ao Brasil.
Um lugar onde ter conhecimento é “desnecessário”, onde pesquisar minimanente qualquer coisa é “perda de tempo”, onde uma gafe do tamanho de 50% da audiência do pais é irrelevante, onde quem vem alertar trazendo uma informação correta é um cara “chato pra cacete”.

Aliás, foi informado pelo Ministério da Educação que este livro nunca fez parte de distribuição em escolas. Já o Ministério da Cultura comprou uma quantidade para distribuir em bibliotecas, dentro do espectro de livros que abordam sexualidade para adolescentes. Biblioteca não é escola, e o livro está presente -e acessível- para pré-adolescentes de 25 países.

O candidato saberia que estava falando de um personagem de sucesso internacional? Era ignorância ou apenas uma “fake news” para solidificar seu papel de herói dos bons costumes diante da população?

Impossível saber.

Mas a besta segue se fortalecendo, e, visto a quantidade de excremento que anda produzindo, está longe de parar de crescer.

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Drapeau France par Custódio Rosa

L’ignorance est une bestiole difficile à combattre, parce qu’elle se renforce en se nourrissant de ses propres excréments.

Ancien militaire, placé à la deuxième place dans la course à la présidence par les sondages, le candidat d’extrême droite a fait sensation au Brésil, cette semaine, en brandissant lors du journal télévisé le plus regardé du pays (ici, un seul et même journal télévisé est la source d’information de toute la population, puisqu’il réalise entre 40 et 50% d’audience sur le créneau horaire) un livre, qu’il a qualifié de « kit gay ».

Cet ouvrage « serait distribué dans les écoles » sans la mobilisation courageuse et opportune de la meilleure partie de notre société, dirigée par lui et ses amis.

Le livre en question concerne un personnage français, appelé Titeuf.

Son auteur est un célèbre caricaturiste français, nommé Zep. Philippe Chappuis de son véritable nom. Agé de 51 ans, il publie des albums de Titeuf depuis 1992, et en a vendus plus de 20 millions d’exemplaires dans 25 pays.

Mais qui est donc ce Titeuf?

Un gamin, pré-adolescent, traversant cet âge confus de qui a quitté l’innocence de l’enfance et tente de comprendre le monde.

Et dans cette tentative de compréhension, il oscille entre le dégoût et l’attraction pour… le sexe!

Dégoût, parce que, évidemment, c’est absolument dégoutant de coller votre bouche, fourrer votre langue humide et ondulante comme une anguille, dans la gorge d’une autre personne, et d’échangez votre salive et des gémissements avec elle.
Si vous ne comprenez pas ce dégoût, c’est que vous n’avez jamais été un gamin de 10 ans.
Attraction parce que, nom de Dieu… vous êtes un gamin de 10 ans!

Avec leur humour décalé, à la fois brut et naïf, les albums de Titeuf sont écrits pour des adultes,  mais aussi et surtout destinés aux garçons.

Parce que ce sont des choses qui occupent leur esprit, et le livre se tient à leurs côtés pour les aider à les comprendre, disant notamment : «Hé, mec, tu n’es pas tout seul. Tout ça est carrément chelou.  »
Mais nous sommes en France.

Retournons au Brésil.
Un endroit où le savoir est « inutile », où chercher à se renseigner un tant soit peu est vu comme une  « perte de temps », où une gaffe embrassant 50% de l’audience du pays passe sans faire de vagues, où celui qui veut mobiliser en apportant une information correcte est un type ‘tellement ennuyeux ».

Incidemment, le Ministère de l’éducation a informé que ce livre n’avait jamais été distribué dans les écoles. Le Ministère de la Culture en a acheté pour les distribuer dans les bibliothèques, dans la masse des livres traitant de la sexualité à destination des adolescents. La bibliothèque n’est pas une école et le livre est disponible – et accessible – pour les pré-adolescents de 25 pays.

Le candidat savait-il qu’il parlait d’un personnage internationalement connu ? Était-ce de l’ignorance ou juste une « fake news  » pour consolider son statut de héros des bonnes moeurs face la population ?

Impossible à savoir.

Mais la bestiole continue de se renforcer et, vu la quantité d’excréments qu’elle produit, elle n’est pas prête de cesser de grandir.

Mulheres italianas / Femmes italiennes

Drapeau Brésil por Custódio Rosa

Caminho pelas ruas italianas.
Todos estrangeiros que conheço, inclusive mulheres, falam do jeito da brasileira andar.
Existe toda uma engenharia ancestral, provavelmente vinda da África (índios brasileiros não têm lá aquela ginga toda) onde a dança é uma linguagem social e as mulheres sempre carregaram grandes e pesados objetos equilibrados na cabeça, exigindo sutis movimentos de quadril para manter o balanço e a harmonia do conjunto enquanto caminham em chão de terra e pedras. Como na música… “lata d’agua na cabeça, lá vem maria…”. É uma mágica.

Aqui vejo as Italianas andando, indo e vindo do trabalho ou olhando lojas e galerias.
São lindas, mas pouco sorridentes, não te olham nos olhos.
Seguem em frente, decididas.

Se as brasileiras caminham como africanas que sabem dançar, as italianas, seja de tênis ou salto alto, caminham em passos largos, num andar rápido e firme, como soldados romanos enviados por César para combater sozinhas um exército de bárbaros em um território qualquer.

E digo uma coisa: eu acho que elas vão vencer.

 

Drapeau France par Custódio Rosa

Je marche dans les rues italiennes.
Tous les étrangers que je connais, y compris les femmes, évoquent la démarche des Brésiliennes.
Il existe toute une technique ancestrale, probablement africaine (Les Indiens du Brésil n’ont pas du tout cette façon de se balancer) où la danse est un langage social et les femmes portaient toujours de grands et lourds objets en équilibre sur la tête, ce qui nécessite des mouvements de hanches subtils pour maintenir l’équilibre et l’harmonie de l’ensemble, tandis qu’elles marchent sur la terre et les pierres. Comme dans la musique … “lata d’agua na cabeça, lá vem maria…” C’est magique.

Ici, je vois les Italiennes qui marchent, vont et viennent du travail, ou regardent les magasins et les galeries.
Elles sont belles mais peu souriantes, et ne te regardent pas dans les yeux.
Elles filent, déterminées.

Si les Brésiliennes marchent comme des Africaines qui savent danser, les Italiennes, en baskets comme en talons aiguilles, font de longues enjambées, dans une démarche rapide et ferme, comme des soldats romains envoyés par César combattre toutes seules une armée de barbares, sur un territoire donné.

Et je dis une chose: je pense qu’elles vont gagner.

Photo credit: Andreauuu on Visualhunt / CC BY-ND

O drible e a tática / Le dribble et la tactique

Drapeau Brésil por Custódio Rosa

Se o futebol for um templo, sem fronteiras e sem pátria, pode-se entrar nele por duas entradas distintas:

Uma é a da diversão, da fantasia, a dança lúdica com a bola, o descompromisso total e absoluto com a linha reta. Chamamos isto de drible.

A outra é a da organização, do planejamento, o compromisso com as posições, os espaços e com o resultado final. Chamamos isso de tática.

O drible é o desvio de caráter permitido. É quando aquele que diz ser, não é; o que diz ir, não vai; o que insinua e aponta mas faz o oposto, e você não pode condená-lo por isso. A tática é a idéia aprisionada. A tentativa de prever e acondicionar, em um invólucro de gente e espaço, toda a imprevisibilidade do jogo.

O drible é a infância, onde a brincadeira é obrigatória, a fantasia é a regra vigente, a molecagem uma doutrina e uma escola pra vida: caia sentado e aprenda, porque ou você engana a vida ou a vida vai te enganar.

A tática é a maturidade, onde a organização se impõe, a responsabilidade te chama a cumprir sua função, a irresponsabilidade é punida com a humilhação: você não foi capaz de fazer sua parte.

Estas idéias opostas, de liberdade absoluta e aprisionamento do indivíduo, se complementam e se tocam, combatendo uma à outra, mas namorando entre si, como amantes que se odeiam nutrindo pelo outro uma atração proibida.

Um jogo só de dribles seria um jogo sem moral, sem sentido e fadado ao fracasso. Uma espécie de conjunto de focas amestradas, personagens de circo se exibindo em um picadeiro confuso, uma orquestra só de solistas aborrecendo a platéia.

Um jogo só de tática não é um jogo, mas um combate de robôs sem inspiração. A organização pura de um time, em seu limite, seria uma infantaria em ordem-unida, marchando em direção ao adversário, torcendo para não ter que lidar com aquele objeto redondo e inconveniente, a bola.

Como qualquer templo, o futebol está sujeito à cultura do qual faz parte. Ele dialoga com o lugar no qual está envolvido, dá e absorve do povo que o circunda.

O Brasil é um país jovem, feito de gente misturada. E por ser jovem, um tanto irresponsável e delinquente, com tanto chão sob os pés, se vale do drible. Da irresponsabilidade de quem acha que tem todo o espaço e tempo do mundo pra viver, se divertir e ainda virar o jogo.

Somos crianças adoráveis, veja como encantamos vocês, veja como os seduzimos, como podemos fazer-los sonhar.

Por isso, perdoem nossos improvisos.

Europeus são um povo bem mais antigo, feito de gente que trazia de suas aldeias a organização como célula de sobrevivência em um terreno disputado e pequeno e longos invernos.

Vencer Romanos, segurar os Russos e aturar os Ingleses não é lá tarefa muito fácil, exige disciplina e um grande espírito de grupo.

Natural que isso resulte em um futebol tático, feito de obrigações e ocupação de espaço.

Os grandes gênios do futebol europeu foram, antes de mais nada, grandes organizadores de jogo. Sua poesia era driblar dentro da funcionalidade.

Os grandes gênios do futebol brasileiro eram improvisadores natos, que traziam da rua a faísca do inesperado, adequando-a na busca da vitória.

Basta jogar uma pelada nos campos amadores do Brasil que você percebe que drible é muito mais perseguido que o gol.

Só perde mesmo para o golaço, que nada mais é do que um gol que se vestiu de drible pra poder se divertir um pouco mais.

 

Drapeau France par Custódio Rosa

Si le football est un temple, sans frontières et sans pays, vous pouvez y pénétrer par deux entrées différentes:

L’un est le plaisir, la fantaisie, la danse ludique avec le ballon, le désengagement total et absolu avec la ligne droite. Nous appelons cela un dribble.

L’autre est celui de l’organisation, de la planification, du respect des positions et des espaces, et du résultat final. Nous appelons cela la tactique.

Dribbler est une déviance autorisée. C’est ne pas être ce qu’on dit être; c’est dire qu’on va quelque part et ne pas y aller; c’est insinuer et indiquer mais faire le contraire, et personne ne peut le blâmer pour cela. La tactique est l’idée emprisonnée. La tentative de prédire et d’emballer, dans une enveloppe de personnes et d’espace, toute l’imprévisibilité du jeu.

Le dribble est l’enfance, où l’amusement est obligation, la fantaisie la règle dominante, la jeunesse une doctrine et une école pour la vie: tomber et apprendre, parce que soit tu triches avec la vie, soit elle triche avec toi.

La tactique est la maturité, où l’organisation s’impose, la responsabilité t’appelle à remplir ta fonction, l’irresponsabilité est punie d’humiliation: tu n’as pas rempli ton rôle.

Ces idées opposées, de liberté absolue et d’emprisonnement de l’individu, se complètent et se touchent, se combattent, mais se retrouvent, comme des amants qui se haïssent, nourrissant l’un pour l’autre une attraction interdite.

Un jeu uniquement fait de dribbles serait sans moralité, insignifiant et voué à l’échec. Une sorte d’assemblage de phoques apprivoisés, de personnages de cirque paradant sur une piste confuse, un orchestre de solistes agaçant le public.

Un jeu uniquement tactique n’est pas un jeu, mais un combat de robots sans inspiration. L’organisation pure d’une équipe, dans sa limite, serait une unité d’infanterie unie, marchant vers son adversaire, espérant ne pas avoir à faire face à cet objet rond et gênant, la balle.

Comme tout temple, le football est soumis à la culture dont il fait partie. Il dialogue avec l’endroit où il est impliqué, donne et absorbe les personnes qui l’entourent.

Le Brésil est un pays jeune, composé de personnes métissées. Et parce qu’il est jeune, un peu irresponsable et délinquant, avec tant de terrain sous ses pieds, il utilise le dribble. De l’irresponsabilité de ceux qui pensent avoir tout l’espace et le temps du monde pour vivre, s’amuser et renverser un match.

Nous sommes des enfants adorables, voyez comme nous vous enchantons, voyez comme nous vous séduisons, comment nous pouvons vous faire rêver.

Alors pardonnez-nous pour nos improvisations.

Les Européens sont un peuple bien plus ancien, composé de personnes qui apportait leur organisation comme une cellule de survie sur un terrain petit et contesté et longs hivers.

Vaincre les Romains, tenir les Russes à distance et supporter les Anglais, ce n’est pas une tâche facile, cela demande de la discipline et un grand esprit de groupe.

Normal que cela donne un football tactique, fait d’obligations et d’occupation de l’espace.

Les grands génies du football européen étaient avant tout de grands organisateurs de jeux. Leur poésie consistait à dribbler dans la fonctionnalité.

Les grands génies du football brésilien sont nés improvisateurs, ils ont apporté de la rue l’étincelle de l’inattendu, l’ajustant à la recherche de la victoire.

Il suffit de jouer sur les terrains amateurs du Brésil pour réaliser que le dribble est beaucoup plus recherché que le but.

On peut même rater un but magnifique, cela n’est rien de plus qu’un but déguisé en dribble pour nous amuser un peu plus.

Sorte / Chance

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Drapeau Brésil por Custódio Rosa

Pelos becos de Nápoli, próximo a estação central, dois napolitanos conversam.

O lugar é típico, atulhado de móveis e bugigangas, em uma zona em que pequenos comércios de troca ou consertos de móveis usados dividem espaço com imigrantes africanos e cabelereiras dominicanas. E napolitanos também, como estes dois pelos quais passo, ambos falando alto, com camisetas brancas sem mangas, quase saídos de um filme de Scorsese.

– … e então ele encontrou uma bela brasileira, trouxe ela e casou.

– Ê, sortudo…

O clichê napolitano falando do clichê do italiano que encontra o clichê da brasileira que quer casar com um gringo e ir morar na Europa.

Tudo registrado pelo clichê do escritor-viajante que ouve histórias nas ruas e escreve depois.

 

Drapeau France par Custódio Rosa

Dans les ruelles de Naples, près de la gare centrale, deux Napolitains parlent.

L’endroit est typique, bourré de portables et de babioles, dans une zone où les petites boutiques de réparations et d’échanges de portables partagent l’espace avec les immigrés africains et les coiffeurs dominicains. Et les Napolitains aussi, comme ces deux-là, devant lesquels je passe, tous les deux parlant fort, avec des T-shirts blancs sans manches, presque sortis d’un film de Scorsese.

– … et puis il a trouvé une belle Brésilienne, il l’a ramenée et il s’est marié avec elle.
– Oh, le veinard …

Le cliché napolitain parle du cliché de l’Italien qui trouve le cliché de la Brésilienne voulant épouser un gringo et s’installer en Europe.

Tout fut enregistré par le cliché de l’écrivain-voyageur qui entend des histoires dans les rues et les écrit ensuite.

Photo credit: [ piXo ] on VisualHunt / CC BY-NC-ND

Fim de tarde em Paris / Fin d’après-midi à Paris

05_fim_de_tarde(foto de Custódio)

Drapeau Brésil por Custódio Rosa

Era final de tarde; minha última noite em Paris.
A luz quase toda tinha ido embora. Descendo do Trocaderó, contornando a Torre pela esquerda, passeando pelo bosque com seus bancos quase vazios devido à garoa que caia fina, vejo uma garota apoiando o celular num dos bancos e correndo para fazer poses para fotos. Me ofereço para fotografar.
Com pouca luz, o celular dela não ajudava muito, ela se desculpa, “é muito velho”.
O meu não é grande coisa, mas pra essas fotos ele serve. Proponho tirar com ele e enviar por bluetooth.
Colombiana, professora de francês e espanhol, 27 anos, esguia, dançarina de salsa com olhos verdes curiosos. Também em sua última noite em Paris, com destino a Lyon. Conversamos em inglês, algumas vezes ela fala em espanhol, respondo em português, ela me ensina palavras em francês -que esqueço imediatamente quando fixo os olhos em seus lábios carnudos mostrando lentamente como se pronunciam.
– Você ja subiu lá ? Ela pergunta olhando para o alto da Torre.
– Sim. O maior clichê do mundo.
– Eu odeio clichês.
– Eu também.
Nesse momento a luz da torre muda, saindo do stand-by de fim de tarde para a multi-ofuscante Iluminação noturna, e arranca uma gargalhada de nós.
A garoa aumentou, ela abre o guarda-chuva, sentamos no banco, coladinhos pra não molharmos.
Conversamos sobre literatura, Woody Allen, dança (pensei em falar sobre Tony Bentley e seu livro “A entrega”, mas preferi não dizer nada).
Rimos muito, enquanto a noite parisiense derramava seu charme irresistível.
– Clichês são terríveis, normalmente só reproduzem o senso comum sobre as coisas… amor, ódio, paixão…
– Concordo. No meu caso, por dever e ofício, preciso fugir deles, passar a muitos metros de distância.
– Sim, clichês são deprimentes.
Conversas sobre nossos países, planos de futuro, bobagens, provocações, sorrisos.
– Nossa! Olha a hora! Nem percebemos!
– Sim, já é tarde.
Levantamos, ainda grudados sob o guarda-chuva, o calor dos corpos aumentando a intimidade, caminhamos em direção à avenida. A última olhada para a torre.
– Quer que eu filme? Depois te mando por email.
Faço um filme em que ela faz uma pose charmosa, eu filmo a torre e termino com um close nos olhos verdes e curiosos.
– Você é incrível! Que gentil, obrigado.
Chegamos ao ponto. O ônibus dela já estava vindo.
– Tchau, moça que odeia clichês.
– Tchau, cavalheiro da noite de Paris.
O ônibus foi embora, eu sigo meu caminho.
Penso na mágica, na poesia e no inusitado de tudo isso.

Não tinha como dar certo. Era clichê demais para nós dois.

 

Drapeau France par Custódio Rosa

C’était en fin d’après-midi; mon dernier soir à Paris.
Il n’y a presque plus de lumière. Descendant le Trocadéro, contournant la Tour par la gauche, me promenant dans le jardin avec ses bancs presque vides, à cause de la fine bruine, je vois une fille penchée sur son portable, sur l’un des bancs. Elle court afin de prendre la pose. Je lui propose de la photographier.
Dans la faible lumière,  son téléphone portable n’offre pas un très bon rendu, elle s’en excuse :  « il est trop vieux. »
Le mien n’est pas un ultra-perfectionné, mais il fait de très belles photos.  Je propose de la photographier et de tout lui envoyer par Bluetooth.
Colombienne, 27 ans, professeur de français et d’espagnol, danseuse de salsa munis d’yeux verts et curieux.  Elle aussi, c’est son dernier soir à Paris, avant de se rendre à Lyon. Nous parlons anglais, parfois elle passe à l’espagnol, je réponds en portugais, elle m’apprend des mots en français que j’oublie dès qu’elle montre comment ils se prononcent, sur ses lèvres.

– « Vous êtes monté là-haut? » Elle pose la question en regardant le sommet de la Tour.
– « Ouais, le plus grand cliché du monde. »
– « Je déteste les clichés. »
– « Moi aussi. »
À ce moment, la lumière de la tour se déclenche, passant de son stand-by de fin d’après-midi à son illumination nocturne éblouissante. Cela nous fait éclater de rire.
La bruine s’est accentuée. Elle a ouvert son parapluie, nous nous sommes assis sur le banc, il  était impossible de ne pas nous mouiller.
Nous avons parlé de littérature, de Woody Allen, de danse (j’ai pensé parler de Tony Bentley et de son livre « Ma reddition », mais j’ai préféré me taire).
Nous avons beaucoup ri, tandis que la nuit parisienne déversait son charme irrésistible.
– « Les clichés sont terribles, ils ne font généralement que reproduire l’opinion commune … sur l’amour, la haine, la passion … »
– « Je suis d’accord. Dans mon cas, je dois m’en éloigner par obligation professionnelle et les reconnaître de loin. »
– « Oui, les clichés sont déprimants. »
Conversations sur nos pays, nos projets futurs,  nos bêtises,  nos provocations, nos sourires.
– « Ouah! Regardez l’heure! Nous ne nous en sommes mêmes pas rendus compte ! »
– « Oui, il est tard. »
Nous nous sommes levés, toujours suspendus sous le parapluie, et avons marché vers l’avenue. Un dernier regard sur la Tour.
– « Voulez-vous que je filme? Je vous l’enverrai par courriel plus tard. »
Je filme, elle prend une pose charmante, je filme la Tour, et je termine par un plan rapproché sur ses yeux verts et curieux.
– « Vous êtes incroyable! Comme c’est gentil, merci. »
Nous avons atteint son arrêt. Son bus arrivait.
– « Salut, chère jeune femme qui déteste les clichés. »
– « Au revoir, chère monsieur de la nuit de Paris. »
Le bus est parti, je continue mon chemin.
Je pense à la magie, à la poésie et au caractère insolite de tout ça.

Ça ne pouvait pas marcher. C’était trop cliché pour nous deux.