Mulheres italianas / Femmes italiennes

Drapeau Brésil por Custódio Rosa

Caminho pelas ruas italianas.
Todos estrangeiros que conheço, inclusive mulheres, falam do jeito da brasileira andar.
Existe toda uma engenharia ancestral, provavelmente vinda da África (índios brasileiros não têm lá aquela ginga toda) onde a dança é uma linguagem social e as mulheres sempre carregaram grandes e pesados objetos equilibrados na cabeça, exigindo sutis movimentos de quadril para manter o balanço e a harmonia do conjunto enquanto caminham em chão de terra e pedras. Como na música… “lata d’agua na cabeça, lá vem maria…”. É uma mágica.

Aqui vejo as Italianas andando, indo e vindo do trabalho ou olhando lojas e galerias.
São lindas, mas pouco sorridentes, não te olham nos olhos.
Seguem em frente, decididas.

Se as brasileiras caminham como africanas que sabem dançar, as italianas, seja de tênis ou salto alto, caminham em passos largos, num andar rápido e firme, como soldados romanos enviados por César para combater sozinhas um exército de bárbaros em um território qualquer.

E digo uma coisa: eu acho que elas vão vencer.

 

Drapeau France par Custódio Rosa

Je marche dans les rues italiennes.
Tous les étrangers que je connais, y compris les femmes, évoquent la démarche des Brésiliennes.
Il existe toute une technique ancestrale, probablement africaine (Les Indiens du Brésil n’ont pas du tout cette façon de se balancer) où la danse est un langage social et les femmes portaient toujours de grands et lourds objets en équilibre sur la tête, ce qui nécessite des mouvements de hanches subtils pour maintenir l’équilibre et l’harmonie de l’ensemble, tandis qu’elles marchent sur la terre et les pierres. Comme dans la musique … “lata d’agua na cabeça, lá vem maria…” C’est magique.

Ici, je vois les Italiennes qui marchent, vont et viennent du travail, ou regardent les magasins et les galeries.
Elles sont belles mais peu souriantes, et ne te regardent pas dans les yeux.
Elles filent, déterminées.

Si les Brésiliennes marchent comme des Africaines qui savent danser, les Italiennes, en baskets comme en talons aiguilles, font de longues enjambées, dans une démarche rapide et ferme, comme des soldats romains envoyés par César combattre toutes seules une armée de barbares, sur un territoire donné.

Et je dis une chose: je pense qu’elles vont gagner.

Photo credit: Andreauuu on Visualhunt / CC BY-ND

O drible e a tática / Le dribble et la tactique

Drapeau Brésil por Custódio Rosa

Se o futebol for um templo, sem fronteiras e sem pátria, pode-se entrar nele por duas entradas distintas:

Uma é a da diversão, da fantasia, a dança lúdica com a bola, o descompromisso total e absoluto com a linha reta. Chamamos isto de drible.

A outra é a da organização, do planejamento, o compromisso com as posições, os espaços e com o resultado final. Chamamos isso de tática.

O drible é o desvio de caráter permitido. É quando aquele que diz ser, não é; o que diz ir, não vai; o que insinua e aponta mas faz o oposto, e você não pode condená-lo por isso. A tática é a idéia aprisionada. A tentativa de prever e acondicionar, em um invólucro de gente e espaço, toda a imprevisibilidade do jogo.

O drible é a infância, onde a brincadeira é obrigatória, a fantasia é a regra vigente, a molecagem uma doutrina e uma escola pra vida: caia sentado e aprenda, porque ou você engana a vida ou a vida vai te enganar.

A tática é a maturidade, onde a organização se impõe, a responsabilidade te chama a cumprir sua função, a irresponsabilidade é punida com a humilhação: você não foi capaz de fazer sua parte.

Estas idéias opostas, de liberdade absoluta e aprisionamento do indivíduo, se complementam e se tocam, combatendo uma à outra, mas namorando entre si, como amantes que se odeiam nutrindo pelo outro uma atração proibida.

Um jogo só de dribles seria um jogo sem moral, sem sentido e fadado ao fracasso. Uma espécie de conjunto de focas amestradas, personagens de circo se exibindo em um picadeiro confuso, uma orquestra só de solistas aborrecendo a platéia.

Um jogo só de tática não é um jogo, mas um combate de robôs sem inspiração. A organização pura de um time, em seu limite, seria uma infantaria em ordem-unida, marchando em direção ao adversário, torcendo para não ter que lidar com aquele objeto redondo e inconveniente, a bola.

Como qualquer templo, o futebol está sujeito à cultura do qual faz parte. Ele dialoga com o lugar no qual está envolvido, dá e absorve do povo que o circunda.

O Brasil é um país jovem, feito de gente misturada. E por ser jovem, um tanto irresponsável e delinquente, com tanto chão sob os pés, se vale do drible. Da irresponsabilidade de quem acha que tem todo o espaço e tempo do mundo pra viver, se divertir e ainda virar o jogo.

Somos crianças adoráveis, veja como encantamos vocês, veja como os seduzimos, como podemos fazer-los sonhar.

Por isso, perdoem nossos improvisos.

Europeus são um povo bem mais antigo, feito de gente que trazia de suas aldeias a organização como célula de sobrevivência em um terreno disputado e pequeno e longos invernos.

Vencer Romanos, segurar os Russos e aturar os Ingleses não é lá tarefa muito fácil, exige disciplina e um grande espírito de grupo.

Natural que isso resulte em um futebol tático, feito de obrigações e ocupação de espaço.

Os grandes gênios do futebol europeu foram, antes de mais nada, grandes organizadores de jogo. Sua poesia era driblar dentro da funcionalidade.

Os grandes gênios do futebol brasileiro eram improvisadores natos, que traziam da rua a faísca do inesperado, adequando-a na busca da vitória.

Basta jogar uma pelada nos campos amadores do Brasil que você percebe que drible é muito mais perseguido que o gol.

Só perde mesmo para o golaço, que nada mais é do que um gol que se vestiu de drible pra poder se divertir um pouco mais.

 

Drapeau France par Custódio Rosa

Si le football est un temple, sans frontières et sans pays, vous pouvez y pénétrer par deux entrées différentes:

L’un est le plaisir, la fantaisie, la danse ludique avec le ballon, le désengagement total et absolu avec la ligne droite. Nous appelons cela un dribble.

L’autre est celui de l’organisation, de la planification, du respect des positions et des espaces, et du résultat final. Nous appelons cela la tactique.

Dribbler est une déviance autorisée. C’est ne pas être ce qu’on dit être; c’est dire qu’on va quelque part et ne pas y aller; c’est insinuer et indiquer mais faire le contraire, et personne ne peut le blâmer pour cela. La tactique est l’idée emprisonnée. La tentative de prédire et d’emballer, dans une enveloppe de personnes et d’espace, toute l’imprévisibilité du jeu.

Le dribble est l’enfance, où l’amusement est obligation, la fantaisie la règle dominante, la jeunesse une doctrine et une école pour la vie: tomber et apprendre, parce que soit tu triches avec la vie, soit elle triche avec toi.

La tactique est la maturité, où l’organisation s’impose, la responsabilité t’appelle à remplir ta fonction, l’irresponsabilité est punie d’humiliation: tu n’as pas rempli ton rôle.

Ces idées opposées, de liberté absolue et d’emprisonnement de l’individu, se complètent et se touchent, se combattent, mais se retrouvent, comme des amants qui se haïssent, nourrissant l’un pour l’autre une attraction interdite.

Un jeu uniquement fait de dribbles serait sans moralité, insignifiant et voué à l’échec. Une sorte d’assemblage de phoques apprivoisés, de personnages de cirque paradant sur une piste confuse, un orchestre de solistes agaçant le public.

Un jeu uniquement tactique n’est pas un jeu, mais un combat de robots sans inspiration. L’organisation pure d’une équipe, dans sa limite, serait une unité d’infanterie unie, marchant vers son adversaire, espérant ne pas avoir à faire face à cet objet rond et gênant, la balle.

Comme tout temple, le football est soumis à la culture dont il fait partie. Il dialogue avec l’endroit où il est impliqué, donne et absorbe les personnes qui l’entourent.

Le Brésil est un pays jeune, composé de personnes métissées. Et parce qu’il est jeune, un peu irresponsable et délinquant, avec tant de terrain sous ses pieds, il utilise le dribble. De l’irresponsabilité de ceux qui pensent avoir tout l’espace et le temps du monde pour vivre, s’amuser et renverser un match.

Nous sommes des enfants adorables, voyez comme nous vous enchantons, voyez comme nous vous séduisons, comment nous pouvons vous faire rêver.

Alors pardonnez-nous pour nos improvisations.

Les Européens sont un peuple bien plus ancien, composé de personnes qui apportait leur organisation comme une cellule de survie sur un terrain petit et contesté et longs hivers.

Vaincre les Romains, tenir les Russes à distance et supporter les Anglais, ce n’est pas une tâche facile, cela demande de la discipline et un grand esprit de groupe.

Normal que cela donne un football tactique, fait d’obligations et d’occupation de l’espace.

Les grands génies du football européen étaient avant tout de grands organisateurs de jeux. Leur poésie consistait à dribbler dans la fonctionnalité.

Les grands génies du football brésilien sont nés improvisateurs, ils ont apporté de la rue l’étincelle de l’inattendu, l’ajustant à la recherche de la victoire.

Il suffit de jouer sur les terrains amateurs du Brésil pour réaliser que le dribble est beaucoup plus recherché que le but.

On peut même rater un but magnifique, cela n’est rien de plus qu’un but déguisé en dribble pour nous amuser un peu plus.

Sorte / Chance

napoli

Drapeau Brésil por Custódio Rosa

Pelos becos de Nápoli, próximo a estação central, dois napolitanos conversam.

O lugar é típico, atulhado de móveis e bugigangas, em uma zona em que pequenos comércios de troca ou consertos de móveis usados dividem espaço com imigrantes africanos e cabelereiras dominicanas. E napolitanos também, como estes dois pelos quais passo, ambos falando alto, com camisetas brancas sem mangas, quase saídos de um filme de Scorsese.

– … e então ele encontrou uma bela brasileira, trouxe ela e casou.

– Ê, sortudo…

O clichê napolitano falando do clichê do italiano que encontra o clichê da brasileira que quer casar com um gringo e ir morar na Europa.

Tudo registrado pelo clichê do escritor-viajante que ouve histórias nas ruas e escreve depois.

 

Drapeau France par Custódio Rosa

Dans les ruelles de Naples, près de la gare centrale, deux Napolitains parlent.

L’endroit est typique, bourré de portables et de babioles, dans une zone où les petites boutiques de réparations et d’échanges de portables partagent l’espace avec les immigrés africains et les coiffeurs dominicains. Et les Napolitains aussi, comme ces deux-là, devant lesquels je passe, tous les deux parlant fort, avec des T-shirts blancs sans manches, presque sortis d’un film de Scorsese.

– … et puis il a trouvé une belle Brésilienne, il l’a ramenée et il s’est marié avec elle.
– Oh, le veinard …

Le cliché napolitain parle du cliché de l’Italien qui trouve le cliché de la Brésilienne voulant épouser un gringo et s’installer en Europe.

Tout fut enregistré par le cliché de l’écrivain-voyageur qui entend des histoires dans les rues et les écrit ensuite.

Photo credit: [ piXo ] on VisualHunt / CC BY-NC-ND

Fim de tarde em Paris / Fin d’après-midi à Paris

05_fim_de_tarde(foto de Custódio)

Drapeau Brésil por Custódio Rosa

Era final de tarde; minha última noite em Paris.
A luz quase toda tinha ido embora. Descendo do Trocaderó, contornando a Torre pela esquerda, passeando pelo bosque com seus bancos quase vazios devido à garoa que caia fina, vejo uma garota apoiando o celular num dos bancos e correndo para fazer poses para fotos. Me ofereço para fotografar.
Com pouca luz, o celular dela não ajudava muito, ela se desculpa, “é muito velho”.
O meu não é grande coisa, mas pra essas fotos ele serve. Proponho tirar com ele e enviar por bluetooth.
Colombiana, professora de francês e espanhol, 27 anos, esguia, dançarina de salsa com olhos verdes curiosos. Também em sua última noite em Paris, com destino a Lyon. Conversamos em inglês, algumas vezes ela fala em espanhol, respondo em português, ela me ensina palavras em francês -que esqueço imediatamente quando fixo os olhos em seus lábios carnudos mostrando lentamente como se pronunciam.
– Você ja subiu lá ? Ela pergunta olhando para o alto da Torre.
– Sim. O maior clichê do mundo.
– Eu odeio clichês.
– Eu também.
Nesse momento a luz da torre muda, saindo do stand-by de fim de tarde para a multi-ofuscante Iluminação noturna, e arranca uma gargalhada de nós.
A garoa aumentou, ela abre o guarda-chuva, sentamos no banco, coladinhos pra não molharmos.
Conversamos sobre literatura, Woody Allen, dança (pensei em falar sobre Tony Bentley e seu livro “A entrega”, mas preferi não dizer nada).
Rimos muito, enquanto a noite parisiense derramava seu charme irresistível.
– Clichês são terríveis, normalmente só reproduzem o senso comum sobre as coisas… amor, ódio, paixão…
– Concordo. No meu caso, por dever e ofício, preciso fugir deles, passar a muitos metros de distância.
– Sim, clichês são deprimentes.
Conversas sobre nossos países, planos de futuro, bobagens, provocações, sorrisos.
– Nossa! Olha a hora! Nem percebemos!
– Sim, já é tarde.
Levantamos, ainda grudados sob o guarda-chuva, o calor dos corpos aumentando a intimidade, caminhamos em direção à avenida. A última olhada para a torre.
– Quer que eu filme? Depois te mando por email.
Faço um filme em que ela faz uma pose charmosa, eu filmo a torre e termino com um close nos olhos verdes e curiosos.
– Você é incrível! Que gentil, obrigado.
Chegamos ao ponto. O ônibus dela já estava vindo.
– Tchau, moça que odeia clichês.
– Tchau, cavalheiro da noite de Paris.
O ônibus foi embora, eu sigo meu caminho.
Penso na mágica, na poesia e no inusitado de tudo isso.

Não tinha como dar certo. Era clichê demais para nós dois.

 

Drapeau France par Custódio Rosa

C’était en fin d’après-midi; mon dernier soir à Paris.
Il n’y a presque plus de lumière. Descendant le Trocadéro, contournant la Tour par la gauche, me promenant dans le jardin avec ses bancs presque vides, à cause de la fine bruine, je vois une fille penchée sur son portable, sur l’un des bancs. Elle court afin de prendre la pose. Je lui propose de la photographier.
Dans la faible lumière,  son téléphone portable n’offre pas un très bon rendu, elle s’en excuse :  « il est trop vieux. »
Le mien n’est pas un ultra-perfectionné, mais il fait de très belles photos.  Je propose de la photographier et de tout lui envoyer par Bluetooth.
Colombienne, 27 ans, professeur de français et d’espagnol, danseuse de salsa munis d’yeux verts et curieux.  Elle aussi, c’est son dernier soir à Paris, avant de se rendre à Lyon. Nous parlons anglais, parfois elle passe à l’espagnol, je réponds en portugais, elle m’apprend des mots en français que j’oublie dès qu’elle montre comment ils se prononcent, sur ses lèvres.

– « Vous êtes monté là-haut? » Elle pose la question en regardant le sommet de la Tour.
– « Ouais, le plus grand cliché du monde. »
– « Je déteste les clichés. »
– « Moi aussi. »
À ce moment, la lumière de la tour se déclenche, passant de son stand-by de fin d’après-midi à son illumination nocturne éblouissante. Cela nous fait éclater de rire.
La bruine s’est accentuée. Elle a ouvert son parapluie, nous nous sommes assis sur le banc, il  était impossible de ne pas nous mouiller.
Nous avons parlé de littérature, de Woody Allen, de danse (j’ai pensé parler de Tony Bentley et de son livre « Ma reddition », mais j’ai préféré me taire).
Nous avons beaucoup ri, tandis que la nuit parisienne déversait son charme irrésistible.
– « Les clichés sont terribles, ils ne font généralement que reproduire l’opinion commune … sur l’amour, la haine, la passion … »
– « Je suis d’accord. Dans mon cas, je dois m’en éloigner par obligation professionnelle et les reconnaître de loin. »
– « Oui, les clichés sont déprimants. »
Conversations sur nos pays, nos projets futurs,  nos bêtises,  nos provocations, nos sourires.
– « Ouah! Regardez l’heure! Nous ne nous en sommes mêmes pas rendus compte ! »
– « Oui, il est tard. »
Nous nous sommes levés, toujours suspendus sous le parapluie, et avons marché vers l’avenue. Un dernier regard sur la Tour.
– « Voulez-vous que je filme? Je vous l’enverrai par courriel plus tard. »
Je filme, elle prend une pose charmante, je filme la Tour, et je termine par un plan rapproché sur ses yeux verts et curieux.
– « Vous êtes incroyable! Comme c’est gentil, merci. »
Nous avons atteint son arrêt. Son bus arrivait.
– « Salut, chère jeune femme qui déteste les clichés. »
– « Au revoir, chère monsieur de la nuit de Paris. »
Le bus est parti, je continue mon chemin.
Je pense à la magie, à la poésie et au caractère insolite de tout ça.

Ça ne pouvait pas marcher. C’était trop cliché pour nous deux.

 

Time é amor, Seleção Brasileira é Hollywood / Mon équipe c’est de l’amour, la Seleção c’est Hollywood

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Drapeau Brésil por Custódio Rosa

No Brasil, quase todo mundo tem um clube de coração.

Mesmo assim sobra muita gente que não é torcedor de clube, ou que não chega a perder fios de cabelo por uma derrota do seu time.

Na Copa as coisas mudam.

Uma legião de pessoas de todos os sexos e idades entra neste território estranho e imprevisível chamado « torcida ». Gente que o ano inteiro não sabe o que é impedimento, reclama do excesso de jogos na tevê atrapalhando a novela, ou fura as bolas dos garotos quando caem no quintal, a cada quatro anos vira torcedor de futebol. Roem unhas, torcem as mãos (dizem vir daí o termo), suam frios, tomam água com açúcar, perdem o apetite e sofrem antes, durante e, muitas vezes, após o jogo.

Mas nós, os outros, que torcemos para nossos times regularmente, duas vezes por semana, 11 meses por ano, olhamos para esse contingente de aflitos ocasionais como olham velhos veteranos de guerra para aqueles recrutas assustados desembarcando no primeiro combate.

Com nossas cicatrizes no lombo, rimos desse desespero alheio: torcer para time é uma coisa bem diferente de torcer para a Seleção.

O time joga sempre.

A todo momento ele testa seu amor, seus limites, sua paixão. Ele te trata muito mais mal do que bem. Você fica muito mais infeliz do que feliz. Entre 20 times de cada campeonato, só um ganha, por isso amar um time é um masoquismo estatístico.

Mesmo assim você ama, sofre por 70 jogos no ano.

É um amor vagabundo, vira-lata, que fica feliz com qualquer afago, carinho que o time lhe faça, mesmo sendo uma vitória suspeita aos 43 do segundo tempo, injusta mas redentora.

Amar um time de futebol é como amar uma mulher que te faz de gato e sapato, te trai e te pisa, faz você ser motivo de piadas dos cunhados, dos vizinhos, dos amigos do escritório, e mesmo assim você não consegue largar.

Já torcer pro Brasil… aquele time em que jogaram Pelé, Garrincha, Rivelino, Zico, Didí e Ronaldo? Aquele que é mais vezes campeão? Aquele que é famoso porque tem o jogo mais bonito do mundo?

Torcer pro Brasil é moleza.

Se a gente olhar bem, torcer pro Brasil é como assistir um filme no cinema. Você senta, pega a pipoca, sabe que vai rolar um espetáculo e que os mocinhos estão do seu lado. Vai ver vários efeitos especiais e as chances de final feliz são muito grandes. Porque a gente quer ver um futebol-Hollywood. Amar a seleção é fácil como amar o… Indiana Jones de chuteiras.

Já amar o time do coração é muitas vezes amar o bandido, o errado, aquele que não merece mas a gente quer ver ganhar.

Sejam bem-vindos os torcedores temporários das Copas. Eu já preparei a pipoca, vou sentar no meu sofá e assistir ao espetáculo. Quero alegria, diversão e efeitos surpreendentes. E se os mocinhos não vencerem no final, eu só desligo a tv.

Porque em alguns dias já tenho encontro com meu verdadeiro amor.

 

Drapeau France par Custódio Rosa

Au Brésil, tout le monde ou presque a un club de coeur.

Malgré tout, beaucoup de gens  ne supportent pas un club en particulier, ou qui ne ne s’arrachent pas les cheveux quand leur équipe perd.

Tout change lors de la Coupe du Monde.

Une armada de personnes de tous sexes et de tous âges pénètre sur ce territoire étrange et imprévisible appelé «supporterisme». Ceux qui ne savent pas ce qu’est un hors-jeu, qui se plaignent du nombre de matchs excessif à la télé, perturbant la diffusion de leur novela, ou crèvent les ballons des gamins quand ils tombent dans leur cours, tous les quatre ans, ces gens deviennent fans de football. Ils se rongent les ongles, se tordent les mains (c’est de là que vient le terme « torcedor »), ont des sueurs froides, boivent du soda, perdent leur appétit et souffrent avant, pendant et, souvent, après le match.

Mais nous autres, qui soutenons nos équipes tout l’année, deux fois par semaine, 11 mois par an, nous regardons ce contingent de passionnés occasionnels comme des anciens combattants observent des recrues apeurées, débarquant dans la bataille.

Avec notre peau lardée de cicatrices, nous rions de ce désespoir lunaire : supporter mon équipe est totalement autre chose que d’encourager la Seleção.

Mon équipe joue toute l’année.

A chaque fois, elle teste votre amour, vos limites, votre passion. Elle vous traite plus mal que bien. Vous êtes beaucoup plus malheureux que heureux. Parmi les 20 équipes d’un championnat, une seule le remporte. Aimer une équipe est donc un masochisme statistique.

Même si vous l’aimez, vous souffrez pendant 70 matchs par an.

C’est un amour sans-abri, cabot, qui se satisfait des soucis, de l’affection que votre équipe génère, même s’il s’agit d’une victoire glauque à 87e minutes de jeu, injuste mais rédemptrice.

Aimer une équipe de football, c’est aimer une femme qui fait de vous un chat et un godillot, qui vous trahit et vous vole, qui  fait de vous un sujet de blagues pour vos beaux-frères, vos voisins, vos amis de bureau, et que vous n’arrivez pas à quitter.

Encourager le Brésil … cette équipe dans laquelle ont joué Pelé, Garrincha, Rivelino, Zico, Didi et Ronaldo? Celle qui compte le plus de victoires ?  Celle qui est célèbre parce qu’elle possède le plus beau jeu du monde?

Encourager le Brésil, c’est un jeu d’enfant.

Si on y regarde bien, encourager le Brésil, c’est comme regarder un film au cinéma. Vous vous asseyez, vous prenez du popcorn, vous savez que vous allez avoir du spectacle, et que les gentils sont de votre côté. Vous verrez des effets spéciaux et il y de grandes chances d’avoir une fin heureuse. Parce que nous voulons voir du football hollywoodien. Aimer la sélection est aussi facile que d’aimer… Indiana Jones en crampons.

Aimer son l’équipe du coeur c’est souvent aimer le bandit, le méchant, celui qui ne le mérite pas, mais que les gens veulent voir gagner.

Les supporters temporaires de la Coupe du monde sont les bienvenus. J’ai déjà préparé le pop-corn, je vais m’asseoir sur mon canapé et visionner le spectacle. Je veux de la joie, du fun et des effets incroyables. Et si les gentils gagnent à la fin, j’éteins la télé.

Parce que dans quelques jours, j’ai déjà rendez-vous avec mon véritable amour.