Entrevista dos autores / dialogue entre les auteurs

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Drapeau Brésil

Custódio– Quem é Baptiste Fillon?

Baptiste Fillon– Me chamo Baptiste Fillon. Tenho o mesmo sobrenome que um primeiro ministro de direita tradicionalista que tive alguns problemas com a Justiça. Mas não conheço ele. Juro !
Nasci em Le Havre, tem 34 anos. Tenho dois filhos. Venho de uma família popular, de trabalhadores. Meu pai era marinheiro. E ele que me deu o gosto das viagens, do futebol e a paixão pelo Brasil.

E você ? Conte-me um pouco mais sobre você.

Custódio– Sou paulistano com raízes familiares em Laguna, Santa Catarina. Nasci em 1967, família classe média baixa, baixíssima eu diria. No Brasil isso significa quase sempre um perfil conservador, moralista, mas minha mãe tem um espírito elevado e humanista, acho que passou para mim e pros meus irmãos. Mas a árvore genelógica é tipicamente brasileira: misturada e sem pedigree. Depois do meu bisavô tudo é confuso. Muita coisa só se sabia por relato oral, que está se perdendo.

Pensando em clichê… ser escritor na França é como ser jogador de futebol no Brasil… Como veio sua ligação com a escrita?

Baptiste Fillon – Foi simples e muito complicado. Demorei muito tempo para assumir o fato de querer escrever. Talvez porque não tenha sido feito na clase social de onde eu venho. Meu pai me contou suas histórias de navegação, minha mãe também teve o dom de trazer pequenas coisas com um humor bastante seco, que eu gostei. Comecei copiando resumos de partidas de futebol, que modifiquei como desejava. Então, durante um longo e chato verão, comecei a escrever meu primeiro livro. Eu me lembro muito bem desse momento. Já era noite e eu precisava sonhar. Então eu inventei uma história que aconteceu na terra do meu coração, no Brasil, no Rio de Janeiro. Demorei sete anos para terminar. É um livro ruim. Um dia, espero voltar atrás e fazer algo de bom dele. Mas acho que vou precisar de uma nova viagem de estudo, no Brasil.

E você, me fala um pouco sobre sua vocação? Porque, não só você desenha, mas também escreve, né?

Custódio– Engraçado… seu « livro ruim” foi aquele publicado pela Gallimard, uma das mais conceituadas editoras francesas?
Gente como nós tem a característica de uma auto-crítica feroz. Deixei de jogar um pouco futebol, além das cirurgias, porque achava que estava jogando muito mal. O futebol é a atividade onde coloco mais auto-crítica, até hoje. Desenhar também, é uma atividade em que o erro fica muito evidente. Pra piorar conheço pessoalmente alguns gênios do desenho. Por isso gosto mais de escrever do que de desenhar. Claro que tem coisas que só o desenho, ou só o texto, transmitem. Mas não tenho muita pena do texto: apago, rescrevo, tiro e recoloco parágrafos, edito sem problemas. Já errar e ter que recomeçar um desenho… dá uma sensação de fracasso e preguiça. Por isso escrevo: por prazer e por preguiça.

Falando de clichês, você tenta não ser o francês comum… mas mora em Paris, é escritor, tem uma visão de mundo ácida e questionadora, senso de humor acentuado mas também com uma ponta de melancolia. Pra mim isso é um francês! Estamos condenados a sermos clichês?

Baptiste Fillon – O livro ruim do que falo não foi publicado.  É sobre o Rio de Janeiro e… futebol. Ela evoca a vida de um jogador que vive em Bangú, um subúrbio popular do Rio. Depois do futebol, ele vai conhecer uma existência de oponente político as ditaduras que o Brasil vive ao longo do século XX.
Então, acho que sim, de certa forma, somos todos clichês, ou uma parte de um clichê. Mas acredito que a maior tragédia seria tentar escapar dos clichês, embora eu ache que algumas vezes o esnobismo é necessário. Sim, nós vivemos a encruzilhada (obrigado Google traduction) de clichês e estereótipos, e isso é o que nos torna únicos, todos. Eu gosto da sua visão de escrever como « preguiça ». É um prazer genuíno, o da indolência. E parece tão brasileiro … Mas, para voltar sobre o caso dos clichês, eu acho que um mundo sem eles é impossível. E um mal sá que faz parte da condição humana, que precisa de referências para se situar. O objetivo é ter os clichês menos idiotas possíveis, não?

Custódio– Bem, para os índios brasileiros, uma pessoa tropeçar e cair é muito engraçado. Eles são super-especializados em se locomover, correr, caçar e pular em um ambiente totalmente irregular e imprevisível, portanto alguém perder o equilíbrio em uma situação corriqueira para eles é muito divertido. Não importa quantos tombos as pessoas caem, eles riem. Mas tropeçar é um clichê universal, no mundo todo, não?
Para se rir de algo é necessário um conhecimento prévio dos signos envolvidos, e alguém que se atrapalha com os próprios pés é engraçado em qualquer lugar.
Mas bebês não riem dos tombos, eles simplesmente se levantam e seguem. Rir disso é racionalmente aprendido. Bebês riem de caretas e barulhos estranhos, que são coisas das quais eles racionalmente têm « conhecimento » prévio.
Então qualquer comunicação sempre parte de um clichê. Linguagem, letras, línguas, culturas…
Eu arriscaria definir que uma boa comunicação ( literatura, música, imprensa, discurso, piada ou conversa) parte de um clichê e chega a algo inesperado.
A má comunicação é aquela que parte de um clichê e termina em outro. O produto cultural de massa é basicamente isso.

O que você tem de clichê  do « francês » e o que não tem?

Baptiste Fillon – Eu acho que teria feito os índios rirem muito … Eu acho que sou tipicamente francês porque: Eu tenho uma opinião sobre tudo, eu sou um eterno insatisfeito, eu amo comer, mas se for uma boa mesa e um ótimo vinho, eu tenho esse sotaque terrível em todas as línguas estrangeiras que eu tento falar, e eu também tenho esse pequeno esnobismo típico, o que significa que os franceses frequentemente gostam de não concordar com seu interlocutor.

O que eu acho que não tenho clichê francês: o medo do risco e do fracasso, a paixão da burocracia e dos diplomas, um chauvinismo que não precisa mais ser (especialmente no campo da literatura) , uma certa mentalidade estreita fazendo que os franceses se consideram como o umbigo e a autoridade moral do mundo (sim, gostamos de definir o que é bom e o que é mal, especialmente para e no lugar dos outros), e então esse amor de idéias, que justifica as piores hipocrisias (não é suficiente pronunciar um discurso humanista para ser humanista, a Revolução Francesa é a época histórica que melhor ilustra esse defeito). Não sei se sou exaustivo, mas acho que é um bom começo.

E você, pode me falar da tua « brasilidade » ou « não-brasilidade » ?

Custódio– Eu temia essa pergunta, embora eu que tenha proposto o tema.
Nossa tendência é se achar fora dos clichês, mas isso quase nunca resiste a uma análise real.

No que não sou clichê de brasileiro:
O brasileiro médio é imaturo, sob vários aspectos. Vive passando a responsabilidade dos seus atos para os outro. A culpa é do transito, do vizinho, do técnico do time, de outro que escolheu aquele vice, mesmo sendo eu a apoiar o golpe que o colocou como presidente.
Eu tento ser o contrário disso. Vivo colocando culpa em mim mesmo até onde não tenho nenhuma. Mas às vezes falho.
O brasileiro médio é alienado, superficial, socialmente egoísta e consumista. Eu acho que não sou.
Ele também coloca o lazer extrovertido como principal prioridade na sua lista existencial. « Balada, « churras », « breja » e « litrão » são palavras dominantes nas conversas (depois ajudo você a entendê-las). Eu vejo nisso crianças crescidas, inconsequentes, buscando a bolha de lazer o tempo todo. Ler um livro em uma poltrona tranquila em um ambiente silencioso é visto como uma coisa exótica, anti-social, até um fracasso social.

Já em outras coisas, acho que sou bem típico.

O gosto pelo  futebol e o espaço que ele ocupa nos meus dias. A preferência pelo calor. Um certo horror à formalidade engomada. Um certo desdém pelos heróis da história. Um certo culto ao corpo (ou pelo menos à saúde). Chegar atrasado, quase sempre (« a culpa foi do trânsito », hahahah…).Uma coisa que descobri viajando… o brasileiro não sabe falar não. Aqui o não é uma coisa socialmente feia. Um italiano ou alemão fala “não” de forma totalmente natural.
O brasileiro, não. Então ele dá voltas e voltas, desvia o assunto, diz « eu te ligo » – spoiler: ele não vai ligar– apenas para não ter que falar « não ». Sou um pouco assim.
São dois os efeitos colaterais disso: 1- estrangeiros costumam achar brasileiros pouco confiáveis, já que em vez do “não” –aceitável– ele enrola e depois não aparece ou não liga –o que é inaceitável. 2- Já que o “não” nunca é dito, quando ele aparece é indigesto. Ninguém sabe discordar com respeito. As pessoas não apenas discordam: o « não concordo com você » é um passaporte para o ódio.

Na maioria dos casos, eu fico entre os extremos do « ser ou não ser brasileiro ».

Por exemplo, a cultura brasileira é totalmente sexualizada. E eu tenho um software sexual (eu chamo de sexware) rodando no cérebro a todo momento, por baixo do programa que estiver em uso no momento. É quase uma obsessão. Mas isso não quer dizer que eu permita que o « sexware » assuma o controle. Quem manda sou eu.
Devo ter tido mais parceiras do que qualquer amigo que eu conheço, talvez vários deles juntos, porque dos 20 aos 50 anos fiquei solteiro por pelo menos 15 anos. Nesses periodos tive semanas e até mesmo dias muitíssimo movimentados, com várias parceiras que também não exigiam compromissos. Como um autêntico Chico da Silva do Brasil!

Mas também  já fiquei longos períodos (que seriam uma vergonha imensa para qualquer homem brasileiro) sem sexo. E fiquei porque simplesmente acho toda aquela « dança da sedução » –dos dois lados– falsa, dissimulada e ridícula. Sei dançar, mas me cansa. E também não tenho nenhum interesse pelo sexo quando é fruto de uma troca de dinheiro, status ou favores. Então posso ser também um autêntico parisiense blasé no meio da cornucópia libertina tropical.
Agora sim  você viu o que é ser exaustivo.

Como vê este blog?

Baptiste Fillon – Primeiro, este blog é uma boa maneira de fazer viver a nossa amizade, compartilhando nossos pontos de vista diferentes, sobre nossos países, nossas culturas.

Acho que é uma aventura que pode ser perigosa, às vezes, porque acho que somos bastante francos e honestes para não compartilhar  sempre as mesmas interpretações. Graça à Internet, vamos viver alguma comunhão de espíritos, além das fronteiras e dos oceanos.

Também, estou muito feliz em me aproximar do meu país de coraçao, conhecê-lo melhor, com a sua complexidade, e matar alguns clichês que ainda sobrevivem na minha mente.

Enfim, eu vejo este blog como uma tentativa literária. Gosto do formato da crônica. Algumas vezes, escrevi algumas no meu site pessoal. Mais foi raríssimo. Então, « Ceci n’est pas un cliché  » é um experiência muito original, e excitante, que vai nos abrir novos horizontes criativos, com certeza, parceiro.

Você teve a ideia do blog. Diga-me como ela apareceu ?

Custódio– Gosto de tentar desvendar os mecanismos abstratos por baixos das coisas. Tenho teorias sobre um monte de assuntos, e o clichê sempre foi uma coisa que me intrigava.
Ele é uma praia segura para o cérebro, um lugar pra onde se pode correr sempre que uma informação chega, o que pode ser muito ruim. Mas ao mesmo tempo ele é necessário, pois, como eu disse antes, para uma comunicação acontecer, os lados envolvidos precisam estar de acordo em algumas coisas: idioma, universo, assunto.

Quando nos conhecemos, por causa do futebol -o que é um clichê- seu senso de humor e interesse em entender o Brasil -um paraíso para os clichês- me fez pensar que seria uma excelente ideia fazer um blog sobre o assunto, que é quase infinito. O nome veio pronto na minha cabeça, junto com o logotipo -aquela tela do Magritte- e então fiz o convite. Tenho um imenso talento para ter ideias que não dão dinheiro nenhum.
Para minha surpresa, você aceitou.
E para surpresa maior, a coisa pegou muito rápido.
Mas engraçado, o blog, que seria o produto principal, virou um detalhe. O mais divertido é desfrutar a amizade e brincar de pontos de vista. Não creio que a aventura seja perigosa, pelo menos entre nós. Vamos discordar algumas vezes, provavelmente, e -do ponto de vista francês- isso é saudável.

Do ponto de vista pessoal, não sou um business man. Prefiro perder o blog do que perder o amigo.

 

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